Qual é a história de sua maior saudade?

Só sentimos saudade de alguém ou algo precioso que tínhamos – e perdemos. Meu pai é a minha maior saudade. E a nossa história é simples, quase uma não história: vivemos poucos anos juntos, mas o suficiente para eu me lembrar dele em cada dia da minha vida. Era um homem qualquer para o mundo, mas não para mim. Homem de coração imenso e grandiosos defeitos (como todos nós). Ele se foi quando eu ainda era menino. Capítulos da nossa breve convivência estão dispersos por toda a minha obra. Posso reencontrá-lo, e também quem quiser conhecê-lo, mirando os meus olhos, iguais aos dele. Mas, se fecho os olhos, só eu posso ver o seu rosto e reconhecer os contornos, que vão se dissipando, da minha maior saudade.

O que o emociona em seu dia a dia?

Despertar e sentir que me foi concedido mais um dia. E que, apesar do cotidiano e seu mecanismo inescapável de repetição, sinais invisíveis me chamam para a poesia que se acumula como pó ao meu redor. O mistério de existir me comove e me espanta a todo instante. Sou grato pela riqueza de vivências que tenho experimentado desde a minha chegada aqui. A vida, apesar das penas, dos desamores, das aflições, é uma aventura (diária) emocionante.  

Como você se imagina no amanhã?

Vanprash é uma palavra hindu que significa “aquele que se volta para a floresta”. Quando a velhice se avizinha e o fim da jornada não está mais tão distante, é hora de começar a mirar a floresta, o lugar de onde viemos, o nosso útero primeiro. Imagino-me, no amanhã, a direcionar os meus olhos, com serenidade, para a floresta. Estou quieto, em reverência ao silêncio, escrevendo (com ou sem palavras) o tempo que resta para o meu ser. Imagino-me nesta condição, e tentarei me preparar para que seja assim. Mas não sei se a minha imaginação coincidirá com a realidade do meu amanhã.

Quem é João Anzanello Carrascoza?

Um escritor, apenas. Alguém que está respondendo esta pergunta agora. Alguém para algumas pessoas. Ninguém para as demais. Tudo para si; quase nada (como você também, leitor) para a história monumental da humanidade.
 

Na foto em preto e branco, João Anzanello Carrascoza aparece olhando para a câmera. Ele é um homem branco, com barba e bigode.
O escritor João Anzanello Carrascoza | foto: Marcos Vilas Boas

Um Certo Alguém
Em Um Certo Alguém, coluna mantida pela redação do Itaú Cultural (IC), artistas e agentes de diferentes áreas de expressão são convidados a compartilhar pensamentos e desejos sobre tempos passados, presentes e futuros.

Os textos dos entrevistados são autorais e não refletem as opiniões institucionais.

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