Salve! Este é o primeiro texto da coluna #DaQuebradaProMundo diretamente da Alemanha.

As desventuras começaram assim mesmo que cheguei. Tive um fim de semana livre e, junto com os voluntários do AFS – organização que me concedeu a bolsa –, fui visitar o Castelo de Schwerin.

Bastaram-me poucos passos dentro do castelo para, do nada, um pensamento maluco me vir à cabeça: “Será que as histórias dos castelos se parecem com as histórias das favelas?”. E foi esse questionamento que me trouxe aqui – para que eu possa partilhar.

#DaQuebradaProMundo no Castelo de Schwerin (imagem: Jessica Küttner)

Antes de ir direto ao assunto, eu queria falar do caminho que me trouxe até aqui. Acredito que, na verdade, não há indagação que venha “do nada”. A pergunta que me veio à cabeça fala muito sobre quem somos. Os caminhos que percorri e, principalmente, o lugar de que viemos.

No geral, sinto que carrego comigo afetos e violências. Desses e dessas que me tocam diariamente pelo simples fato de ser quem eu sou, sabe? Uma vontade de chorar por saber tudo o que você representa. Abraçar esse medo é aceitar a dualidade que o habita.

No meu caso: nem-tão-preto-nem-tão-branco. Favelado-no-meio-de-um-castelo. Ou, até mesmo, playboy-dando-aula-na-fundação-casa. Eu sou esse “não lugar”. Por outro lado, ando por aí e enxergo várias humanidades em comum. A teimosia no meu peito grita e me faz acreditar que existe, sim, uma favela no meio de um castelo. É daí que veio o grito. Meu coração não gostou desse não lugar e preferiu chamá-lo de uma bela “sim ponte”. Certo? É por isso que eu escrevo.

Sala do trono, interior do Castelo de Schwerin (imagem: Alexandre Ribeiro)

Agora vamos para as pontes concretas: quando a história dos castelos e a das favelas se encontram?

As histórias começam com semelhanças e distinções muito interessantes. Primeiro, tanto os castelos como as favelas existem em vários cantos do mundo. Há castelos na Europa, assim como na África, e, ao mesmo tempo, existem favelas na América do Sul e também na Ásia. E o que as difere? Os motivos. Que, na verdade, acabam nascendo da mesma raiz: propriedade, bens e poder – ou a falta deles.

As histórias dos castelos vêm de uma brisa meio errada e ao mesmo tempo incerta. Os castelos não eram defensas comunitárias, mas foram construídos para fortificar os senhores feudais locais. Alguns historiadores dizem que os castelos só começaram a surgir depois que alguns senhores sofreram ataques a suas propriedades e a seus bens. Os castelos foram construídos exatamente para a proteção desses bens e propriedades da época.

Já as favelas nasceram exatamente por um eco histórico da riqueza dos castelos. Elas nasceram pela falta de propriedade, bens e poder. As pessoas que sofreram durante anos e anos com o imperialismo, o colonialismo e o regime escravagista não tiveram opção que não fosse se alocar nos cantos mais distantes das cidades e, ao mesmo tempo, mais próximos das fábricas, das metalúrgicas e dos campos. E foi nesses cantos distantes que elas fizeram suas casas, da maneira como dava, e fundaram as primeiras favelas.

Castelo de Schwerin (imagem: Alexandre Ribeiro)

Com o passar do tempo e com a prosperidade, outra similaridade se apresenta: o sistema de proteção. Na quebrada, as nossas guardiãs são as tiazinhas aposentadas que ficam o dia todo na janela “zé povinhando”; o nosso segurança é o barulho da Car System sem parar; e o nosso alarme são os fogos de artifício que estouram assim que a polícia chega. Porém, anos atrás era um pouco diferente.

Para se proteger contra os ataques inimigos, aqueles que cuidavam dos castelos dos senhores feudais elaboraram diversas táticas de defesa. Criaram buracos em volta do castelo para manter distância; construíram lagos ao seu redor; fizeram corredores com pedras; levantaram a casa sobre um monte artificial; fizeram várias entradas antes do castelo, entre diversas outras táticas.

Pensando nos ecos da história, podemos ver que até mesmo a necessidade se adapta ao tempo. Originalmente, os materiais para a construção de um castelo eram terra e madeira, mas com o passar dos anos foram substituídos por pedras e, em poucos casos, tijolos.

O mesmo aconteceu nas quebradas e nas favelas do mundo, na medida em que os barracos de madeirite foram trocados pelas casas de alvenaria, conjuntos habitacionais etc.

Acredito que eu poderia escrever mais, mas vocês pegaram a ideia, né? Acho que o espírito central é que não para por aqui. Talvez esse possa ser um exercício diário nosso.

Quanto de semelhante da gente conseguimos enxergar no outro? Quanto a gente se parece? E quanto a diferença do outro nos encanta?

Sala dos espelhos, Castelo de Schwerin (imagem: Alexandre Ribeiro)

Por enquanto, vou ficar aqui na cidade de Hamburgo por um mês. Estou em um treinamento de adaptação sobre as regras e a cultura alemã. Para além disso, estou me acostumando com a ideia de que, se pá, vou ter mesmo saudade do busão lotado que vai da minha quebrada até o metrô. Mas, aê, reclamar é que eu não vou, né? Pra quem venceu a fome, a Europa não vai ser muita treta.

No texto do próximo mês já estarei na minha nova cidade, Osnabruck, e é de lá que trarei as novidades. Aguardem as cenas do próximo episódio.

Bis bald! Auf Wiedersehen!

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