Qual é a história de sua maior saudade?

acho que é o cérebro despressionado, desimportante, a vida sem interrogatório. as coisas sem nome, suando. as vezes que eu jogava futebol mais muleque, testava o corpo no suor, correndo. eu jogava melhor que muito menino e isso me trazia olhar e pergunta, mas antes só queria descobrir como se inventa um passeio bonito pra bola, descobrir como atravessar um campo. chegava em casa da escola pronta pra continuar jogando, na praça, com o Maicom. tenho saudade do Maicom. ele me ensinava os dribles. ali o dia acabava no máximo de joelho ralado e não estávamos devendo nada. eu dormia.

O que a emociona em seu dia a dia?

ah, eu me emociono pra burro. um ônibus me leva pra 300 lugares. ver um menino tomando sorvete no calor, o outro andando com cara de tempo. esse ano tá difícil se emocionar, mas hoje me aumenta ir até a casa da minha namorada, constatar, no elevador, que o andar dela é o meu número da sorte. ver que o corpo segue seguindo desejo. tá aprendendo paciência e morte, como se fossem cotovelos. coisas que temos, e dobramos. antes da máscara, meu dia tinha gente que eu não conheço, o dia saía mais de mim. o que gostava mais era de gastar minha passagem com as pernas, sair andando, me emociona passar a paisagem, devolver às coisas os seus vultos. 

Como você se imagina no amanhã?

nunca soube imaginar o futuro. quando me despeço dos meus amigos tenho mania de dizer “até amanhã”. mesmo que seja mentira. gosto da vida pensando que amanhã é o dia em que vou encontrá-los de novo. agora sei menos sobre isso. sei cada vez menos sobre o que avança ou se mantém. tenho vivido transições muito silenciosas, de duração devagar. mas sei que minha tarefa é escrever. amanhã estarei escrevendo, começando a escrever.

Quem é Maria Isabel Iorio?

eu sou poeta, artista visual, escrevi dois livros de poema e imagem pela editora Urutau. agora-agora tô escrevendo uma dramaturgia e dando uma oficina de poemas. sou um bicho difícil, penso a vida por gesto e provocação. luto pra coisa ser coletiva. tenho insônia e não sonho há mais de dez anos. eu gosto de problema, pergunta, coisa aberta. gosto de inventar coisa e método pra fazer a coisa. depois trair a coisa. fico dobrando, dobrando, dobrando. ouço a mesma canção centenas de vezes seguidas. desde que inventei meu corpo, trago um sorrisinho, irrecuperável, na cara, sempre que alguma coisa está com cara de que pode ser desobedecida. um sorrisinho vendo alguma chance de a vida poder ser mais gostosa, mais erótica, mais confusa.

Maria Isabel Iorio (imagem: divulgação)

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Os textos dos entrevistados são autorais e não refletem as opiniões institucionais.

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