por Da Quebrada Pro Mundo com Alexandre Ribeiro

Salve, salve, comunidade! No segundo texto #DaQuebradaProMundo eu trago um pouco dos aprendizados de um favelado no primeiro mês vivendo na Alemanha. Quer saber mais? É só chegar!

31 de julho de 2019, com minha mãe: última foto antes do embarque  (imagem: arquivo pessoal)

Sabe aquela frase famosa da quebrada: Que toda vez que algum mano vai preso os vizinhos ficam falando? Não é a do Tony Country*, não (quem é da quebrada tá ligado!). É esta aqui: “Os humilhados serão exaltados”.

Parça, finalmente meu dia chegou. Eu voei de primeira classe.

Comprovante de que os humilhados serão exaltados (imagem: arquivo pessoal)

Saindo de Guarulhos e chegando a Zurich, na verdade, eu não voei de primeira classe. Eu precisava aumentar um pouco para fazer um charme. O voo foi de Business, o suficiente para me transformar em um playboy por boas horas.

No meio do voo me deram champanhe, queijo suíço e até um filé-mignon. Acredita? Eu me senti em “Um dia de Princeso”, no programa do Netinho.

Só que também precisei fingir que estava entendendo tudo. Eu não tinha ideia do quanto aquela brincadeira poderia custar. E se você, assim como eu, gostaria de saber aqui segue um dado para efeitos de comparação: uma passagem dessas custa em torno de 15 mil reais. Ou seja, dá para comprar um Celta.

E quer saber o melhor de tudo isso? Não paguei nenhum centavo. Eu, que nunca ganhei nem rifa na quermesse, fui premiado em um sorteio na hora de fazer o check-in. Vai vendo.

E tudo estava fácil demais, né? Você acha que na vida de um favelado tudo serão flores? Abraça. Não demorou muito e eu já dei de cara com a realidade. Quando cheguei a Hamburgo, minha mala estava completamente quebrada. Se liga:

Ô vida de gado (imagem: arquivo pessoal)

O pessoal do AFS (organização que me deu a bolsa) foi me buscar no aeroporto de Hamburgo, a segunda maior cidade do país, e desde então nunca senti a vida passar tão rápido. 

Nesse primeiro mês a agenda foi intensa. Cheguei, deixei a mala no apartamento e, quando menos esperava, já estava fazendo aulas de alemão por toda a cidade. Foram 30 dias de aulas pela manhã e treinamentos culturais durante a tarde. Todo santo dia. Saindo às 8h e chegando às 20h. De domingo a domingo. Um preparativo intenso para este ano que eu e outros voluntários vamos viver na Alemanha.

Porto da cidade de Hamburgo (imagem: arquivo pessoal)

No primeiro mês aprendi muito sobre a cultura alemã e, principalmente, desconstruí alguns estereótipos que foram criados no meu imaginário. Não, os alemães não são frios. Na verdade, grande parte deles é às vezes até mais calorosa que os brasileiros.

O contato físico aqui é realmente diferente. As pessoas não estão acostumadas a se abraçar e beijar. Mas isso é um problema. Estou aprendendo diariamente por aqui que não é só porque é diferente que é pior ou melhor. Só é diferente. Estranho mesmo é julgar os outros.

A culinária alemã, na verdade, é um apanhado de várias culturas e isso me deixa fascinado. Você pode sair e comer um prato asiático, depois um petisco africano e, no fim, uma sobremesa espanhola. É tudo bem diverso por aqui. Em um momento, eu me perguntei “onde estão os brancos de olhos claros? Acho que eles são minoria aqui”. Adoro o jeito como a diversidade torna os lugares mais coloridos.

A diversidade também tem seu lado ruim. A situação com os refugiados tomou proporções inesperadas. E por conta disso é possível sentir uma tensão no ar por ser um estrangeiro neste país.

Fui parado pela polícia pelo simples fato de estar andando na estação de ônibus. Aliás, vou tratar disso em um texto à parte.

Estou aprendendo a respeitar o silêncio das ruas. Tem dias que é possível escutar o bater das asas dos pássaros. Aos domingos, quase tudo na cidade fecha e o silêncio é respeitado. É mágico e purificador.

E o que mais me encanta por aqui é andar pela cidade e ver uma história que não foi apagada. Desde as placas que estão em dourado no chão, marcando a residência das vítimas do nazismo, até as dezenas de museus e informações disponíveis pelas ruas. A Alemanha sabe que o passado não é de se orgulhar, mas não tenta apagá-lo. É necessário entender o passado para sonhar com o futuro.

Gerechtigkeit für Marielle Franco (justiça para Marielle Franco) (imagem: arquivo pessoal)

Como diriam os alemães, agora estou em um “éfi-éss-iót” (FSJ), sigla para Freiwilliger Sozilaes Jahr, que significa Ano do Trabalho Social Voluntário. Por meio desse programa, ganhei uma bolsa que concede hospedagem, alimentação e transporte. Depois do mês de treinamento em Hamburgo, vim para a cidade de Osnabrück. É aqui que vou ficar nos próximos 11 meses e fazer meu voluntariado social. Meu projeto será desenvolvido na Horst-Koesling Schule – escola que usa a arte para educar crianças com diversas deficiências.

Horst-Koesling Schule, onde atuarei em projeto de trabalho social voluntário na Alemanha (imagem: arquivo pessoal)

O voluntariado, de fato, tem início na próxima semana. Estou muito ansioso para começar uma “vida alemã” e praticar o idioma melódico (que às vezes parece uma briga de alienígenas) diariamente.

Que essa experiência seja bela e cheia de coisas boas para que eu possa voltar aqui e partilhar cada detalhe da jornada com vocês. 

Até a próxima coluna, bis bald! #DaQuebradaProMundo

 

* Tony Country representa o símbolo do P.J.L. na quebrada (paz, justiça e liberdade).  

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Sol dades

No texto desse mês, o colunista Alexandre Ribeiro relata sua experiência na Alemanha e a saudade de casa