Teatro Oficina, TV Uzyna, Rádio Uzona: é assim que Zé Celso e sua trupe têm se dividido neste período de suspensão social. Foi em 13 de março de 2020 que o teatro se abriu pela última vez e, desde então, a companhia busca dialogar com a internet a fim de compartilhar arte com quem está em casa e obter apoio financeiro para suprir demandas como contas e salários do elenco. Nesse sentido, a TV Uzyna, canal no YouTube do Oficina, passou a ser ainda mais alimentado com vídeos de espetáculos. E, agora, para completar o trio, surge a Rádio Uzona, podcast que traz encenações em formato radiofônico. A peça de estreia, disponível nas plataformas de streaming, é Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, escrita por Antonin Artaud em 1948 – produzida, justamente, para ser veiculada através do rádio.

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No mundo pré-pandemia, o Oficina estava a pleno o vapor. “Fizemos mais de um ano de Roda Viva, sempre com casa lotada. Paramos no fim de janeiro e, em fevereiro, tiramos férias. Estávamos voltando com Roda Viva aos finais de semana e, de quarta a sexta-feira, com O Bailado do Deus Morto”, recorda Marcelo Drummond. O ator conta que, dada a necessidade de isolamento, todos ficaram perplexos em um primeiro momento. “Ficamos perdidos. Eu, por exemplo, vivo de bilheteria há 30 anos. De repente, eu me vi sem ter como viver”, diz. Até que ele mesmo teve, em uma reunião on-line, a ideia de o grupo ler textos dramatúrgicos. Leram, leram, mas também ponderaram acerca de questões técnicas, como sinal ruim, conexão falha, atrasos e telas travadas. Há outro modo de trabalho a distância?

O Bailado do Deus Morto | foto: Jennifer Glass

A resposta veio na configuração de podcast. Juntos, os artistas decidiram criar um conteúdo que conversa tanto com as mídias atuais quanto com a tradição teatral e, para isso, resolveram retornar a Antonin Artaud. “Pra Dar um Fim no Juízo de Deus tem origem radiofônica: Artaud gravou em forma de programa, censurado na época. Virou, porém, ícone, um texto de grande poesia que montamos em 1996 a 1998 e, depois, em 2014 a 2016”, pontua Marcelo. Por essa ligação com o áudio e a trajetória da companhia, a peça foi escolhida para dar o pontapé inicial em um projeto que está só no começo.

Na sequência, O Bailado do Deus Morto, Paranoia (solo de Marcelo Drummond) e Cacilda! são títulos que devem ganhar episódios na Rádio Uzona. Com edição de Felipe Botelho e Amanda Ferraresi, há ainda a preocupação de construir ambientes sonoros como se fossem cenários, um trabalho articulado com o intuito de fazer vir à tona o teatro gravado. “É também um jeito de nos ocuparmos neste momento. E oferecermos algo em troca da doação do público, para a manutenção do teatro e para a nossa própria manutenção”, comenta Marcelo. Manter, enfim, aceso o Oficina, à espera de quando o encontro presencial se fará possível.

E já são imaginadas maneiras para a volta, que não tem data nem previsão por enquanto. Marcelo salienta que chegaram a pensar em mudanças arquitetônicas que permitissem o distanciamento entre os espectadores – o que poderá ser feito, perceberam, sem transformações na construção. Descobrir outras formas de encenação se anuncia como o próximo desafio para um grupo mestre em reinvenções. O que é certo, seja no físico ou no virtual, é que o Oficina continua, permanece, resiste.

Teatro Oficina | foto: Jennifer Glass
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