por Luísa Pécora

“A produção de maior potência na arte brasileira, hoje, tem sido feita por artistas negros. A produção negra é um grande farol para a arte brasileira: traz assunto, consistência, noção do gesto político, mudança de perspectivas na estrutura da arte. É um olhar que vem na contramão de certas noções de beleza que pareciam estáveis, que traz contundência no sentido de discutir e de mudar o público.”

Quem me deu este depoimento foi a atriz, dramaturga e diretora Grace Passô, durante uma entrevista que fiz com ela no início de 2019. Já faz algum tempo (o tempo pré-pandêmico sempre parece distante), mas muitas vezes voltei a essa fala para refletir sobre o cinema brasileiro dos últimos dez anos. De fato, grande parte da força da produção nacional recente se deve ao trabalho e à movimentação das realizadoras e dos realizadores negros, no contexto de importantes políticas públicas (incluindo a ação afirmativa nas universidades) e das conexões formadas por grupos como a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), criada em 2016, e festivais como o Encontro de cinema negro Zózimo Bulbul, que neste ano realizou sua 14ª edição.

É claro que o cenário permanece profundamente desigual, especialmente no que diz respeito à participação dos artistas negros, sobretudo mulheres, na realização dos longas-metragens que estreiam no circuito comercial. Observe-se, por exemplo, um levantamento do Grupo de Estudo Multidisciplinar de Ação Afirmativa (Gemaa), ligado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que analisou os dez filmes nacionais de maior bilheteria anualmente entre 1995 e 2018, excluindo documentários, animações e longas infantojuvenis. Chegou-se a um total de 240 filmes; destes, nenhum tinha uma mulher negra na direção ou no roteiro.

O espaço do longa-metragem – e do longa-metragem que estreia em amplo número de salas, fator determinante para as grandes bilheterias – sem dúvida precisa ser ocupado. Mas o streaming permite que o espectador tenha acesso a uma cinematografia nacional mais diversa sem depender da mediação do circuito comercial. Plataformas como a Afroflix e a Todes Play são dedicadas ao cinema negro, e as focadas no audiovisual brasileiro, como a Itaú Cultural Play e a Spcine Play, também oferecem boas opções entre curtas e longas-metragens.

Abaixo, destaco cinco filmes dirigidos por mulheres negras que estão no catálogo da Itaú Cultural Play. Embora longe de dar conta de toda a potência da produção negra, esta pequena seleção já evidencia sua versatilidade: há filmes experimentais, de animação, documentais e de ficção, feitos em diferentes estados brasileiros e por realizadoras com interesses e estéticas particulares. Confira:

Das raízes às pontas
Flora Egécia | 2015
Distrito Federal

(imagem: Janine Moraes)

Ganhador do prêmio do júri popular na 49ª edição do Festival de Brasília, este curta-metragem documental aborda o papel da referência estética na construção da identidade. Homens e mulheres de diferentes perfis e idades – da estudante Luiza, de apenas 12 anos, à atriz Sheron Menezzes – contam como a relação com o próprio cabelo se tornou uma ferramenta política e de contato com a ancestralidade. O filme toca, também, na importância de falar sobre diversidade e identidade com crianças e jovens, discutindo a aplicação (ou não) da lei de 2003 que regulamentou o ensino de história afro-brasileira e africana nas escolas brasileiras.

Escola das águas: o desafio pantaneiro
Juliana Vicente | 2014
Mato Grosso do Sul

A educação está no centro deste documentário realizado por Juliana Vicente numa parceria de sua produtora, a Preta Portê, com o Canal Futura. Registrando a beleza das paisagens pantaneiras, o longa retrata o cotidiano da Escola Fazenda Santa Mônica, única instituição de ensino em um raio de 100 quilômetros na região do Paiaguás, no Pantanal. O acesso ao local, isolado e sem energia elétrica, é profundamente afetado pelo ciclo das águas, o que cria um desafio particular: ali, cerca de 50 alunos, a maioria filhos de trabalhadores rurais, passam meses longe dos pais.

Mumbi 7 cenas pós Burkina
Viviane Ferreira | 2010
São Paulo

A cineasta Viviane Ferreira é conhecida principalmente pelo premiado curta O dia de Jerusa (2013), que está disponível no catálogo da Itaú Cultural Play. Mas a plataforma também dá acesso a outros dois trabalhos da diretora: Peregrinação (2014) e Mumbi 7 cenas pós Burkina (2010). Nesse último, a atriz Maria Gal interpreta uma cineasta que reflete sobre o fazer cinematográfico após participar do Fespaco, o mais importante festival de cinema da África, realizado em Burkina Fasso. As filmagens feitas pela diretora dialogam com imagens de obras como Limite (1931), Alma no olho (1974) e A deusa negra (1953).

Òrun Àiyé – a criação do mundo
Jamile Coelho e Cintia Maria | 2015
Bahia

(imagem: divulgação)

A animação é uma das áreas do cinema que mais impõem obstáculos às mulheres, sobretudo não brancas. No Brasil, realizadoras que optam por esse formato têm o desafio adicional de enfrentar o domínio das grandes produções norte-americanas. Nada disso desanimou as diretoras Jamile Coelho e Cintia Maria, que criaram uma animação em stop motion centrada na cultura afro-brasileira. No curta, uma criança ouve seu avô narrar a criação do mundo e dos seres humanos pelos orixás, numa celebração da cultura oral e dos contadores de história.

Voltei!
Ary Rosa e Glenda Nicácio | 2021
Bahia

(imagem: divulgação)

Nascidos em Minas Gerais, Ary Rosa e Glenda Nicácio se conheceram quando foram estudar cinema em Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Mais tarde, rodaram o país com Café com canela (2010), primeiro dos quatro longas que dirigiram juntos. Na Itaú Cultural Play é possível assistir ao trabalho mais recente da dupla, Voltei!, ambientado em apenas uma noite e em uma única locação: a casa das irmãs Alayr e Sabrina. Sem energia por causa de um apagão nacional que já dura um mês, as duas usam um radinho de pilha para acompanhar o julgamento que pode derrubar o presidente. Eis que algo inesperado acontece: uma terceira irmã, dada como morta, bate à porta.

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