A série de debates Brechas Urbanas – sobre a vida nas cidades, a partir das perspectivas da arte, da política, da pesquisa – teve sua última edição em 2019. Iniciada em 2015, ela trouxe conversas sobre gênero, hábitos alimentares, loucura, literatura, artes do corpo, imigração, jornalismo e desenvolvimento, entre outros temas. Para celebrar os cinco anos de diálogo, convidamos as comunicadoras Natália Garcia e Monique Evelle – mulheres que estiveram à frente da mediação do programa – para falar do que definiu o Brechas para cada uma delas, o que destacam, o que aprenderam.

Em 2020, o Brechas Urbanas será retomado em uma série de podcasts. Essa temporada inicial será inspirada em músicas que cantem a cidade e misturará a fala de convidados especiais – mantendo o espírito do ciclo de debates – com entrevistas de rua (conheça aqui os podcasts atuais do Itaú Cultural). Acompanhe também as colunas do Brechas: até março, contamos com as crônicas da escritora e jornalista Vanessa Barbara.

Assista às gravações de todos os Brechas Urbanas no nosso canal do YouTube. Ao longo deste texto, destacamos o primeiro e o último programa da série.

Natália Garcia: “O Brechas é um acorde”

Antes de o Brechas surgir, eu tinha uma percepção de que havia uma demanda muito forte por falar sobre as cidades que a gente constrói para nós – a humanidade escolheu viver em cidades, mas [as que fazemos] têm um design que não está orientado pela vida.

Havia uma demanda muito forte por falar desse assunto, só que claro que o Itaú Cultural tinha de achar um jeito único de fazer isso. Esse insight de falar da vida urbana a partir das brechas foi muito valioso, porque em vez de falar da cidade consolidada a gente fala das oportunidades de mudança, daquilo que está abrindo espaços nesse sistema.

Uma coisa muito especial do Brechas é ter [dois ou três] convidados e um mediador. Um dos nossos participantes, o [arquiteto] José Bueno, fez uma analogia legal: no TED, em que cada um conta sua história, é como se as falas fossem um solo de guitarra; no Brechas, é como se fossem um acorde – notas soando ao mesmo tempo, formando uma harmonia. Então, é outra forma de fazer eventos, de trazer conhecimento – menos sobre visões individuais e mais sobre a combinação de pontos de vista.

Outro elemento importante no formato é que as apresentações de base das conversas traziam uma experiência para o público, e um pouco da arte do convidado.

De destaques das coisas que a gente viveu, um Brechas muito especial foi o que trouxe o Slam Resistência. A gente fez um slam no palco, foi muito alto-astral. Noutro, a gente recebeu Ailton Krenac, líder da etnia indígena dos Krenac, que falou sobre a força da floresta e como ela pode sobreviver à cidade. Também tivemos Lotje Sodderland, cineasta e criadora do filme My Beautiful Broken Brain, foi uma presença bem especial. Falamos sob o cérebro humano e como ele é moldado pela experiência de cidade que temos. Por último, eu destacaria o programa com o Músico Cidadão, uma banda de imigrantes e refugiados.

Para mim, [o Brechas Urbanas] foi um grande aprendizado sobre como os eventos são uma oportunidade de disseminar conteúdos, mas também de criar uma experiência que toque, que emocione as pessoas, que mexa com o corpo, que não fique só na mente, nas informações. O Brechas foi muito inovador nesse sentido.

Já que a gente vai se encontrar em um lugar, por que não fazer disso uma experiência marcante mesmo, né? Sinto que muitos eventos ficam  em um lugar raso de conteúdo. O Brechas era muito profundo. Ele deixa marcas. Quem passou por um sabe como ele transformava todo mundo que estava lá.

Monique Evelle: “Reencontro com a verdade não absoluta”

O Brechas foi um lugar de reencontro e conexão. Reencontro com aquilo que eu acredito, reencontro com a possibilidade de ser essa pessoa singular na hora de mediar, reencontro com a ancestralidade – independentemente da temática, reencontro com a verdade que nunca foi absoluta. E esse reencontro possibilitou conexão com o diferente, com narrativas diversas, com novos conhecimentos.

Esse programa deveria existir em cada organização, marca, empresa, coletivo, tudo. É um momento de construção de uma inteligência coletiva sustentável. É espaço de troca. E sempre terá alguém que poderá sanar suas dúvidas, porque é uma verdadeira troca.

Foi muito significativo, em 2019, eu ter feito parte disso. Foi um ano muito complexo, para o Brasil e para o mundo, e eu estava imersa nesse ambiente seguro – confortável e desconfortável ao mesmo tempo, porque toda pergunta que a gente joga para o universo e direciona para cada convidado e convidada já é um desconforto.

Eu não fui mediadora, eu fui curiosa. Todas perguntas feitas vieram da curiosidade e da busca incansável por conhecimento. Até para  as perguntas mais bobas as respostas eram as mais incríveis. Fez parte da minha jornada de aprendizado, principalmente quanto aos temas que eu desconhecia ou em que não tinha profundidade.

Essa possibilidade de sempre reafirmar meu nome e sobrenome em cada edição, essa possibilidade de nunca apresentar convidado e convidada – porque acho inadmissível a gente ter de falar na terceira pessoa, é importante que cada um que tem sua história e conhece verdadeiramente sua história e narrativa possa se apresentar em primeira pessoa – foi um espaço aberto para experimentar. Eu não fiz isso em nenhum lugar, tive a possibilidade de fazer isso durante o Brechas.

Resumindo, o Brechas foi onde me encontrei e desencontrei o tempo todo, onde pude ser curiosa, onde resgatei esse espírito infantil da pergunta, onde não tive medo de fazer perguntas bobas, onde não tive medo de questionar e de me inserir no meio da discussão, dos questionamentos, das reflexões. Pude ser uma Monique singular e ao mesmo tempo plural, sabe? Eu tenho muito orgulho de ter feito parte disso, de verdade.

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