A partir de imersões no nosso acervo de obras de arte, propomos, aqui no site e no Instagram, pequenos encontros com artistas em obras. A série Interiores faz parte dessas publicações e é dedicada a obras que retratem os espaços internos de suas casas, de seus ateliês etc.

Geraldo de Barros
Autorretrato, 1949
gelatina e prata sobre papel
da série Édition Musée de l'Elysée, Lausanne, Suíça
Acervo Banco Itaú
imagem: Iara Venanzi/Itaú Cultural

Estamos acostumados a fotos que são quadrados ou retângulos. Nos feeds das redes sociais, uma após a outra rolamos imagens, sim, variadas, mas que preenchem sempre essa mesma regularidade. Agora repare no autorretrato logo acima deste texto: o molde comum foi desestabilizado. No interior da forma retangular que é essa fotografia, há outra, a da janela, com limites pouco definidos; e, na janela, os vários vidros quadrangulares, que recortam o personagem.

Compare com esse outro Autorretrato. Mais ou menos um terço da figura é recortado por um triângulo preto. Outro elemento nessa produção que é bem diferente do que vemos todos os dias é a situação do que seria o objeto principal da obra, o artista autorretratado. A área escura como que o acua, o espreme. Pense como a sensação seria diversa se todo o quadro fosse do homem subindo a escada.

Esse tipo de escolha criativa delineia o trabalho de Geraldo de Barros, que não só foi fotógrafo, como também pintor, gravador, artista gráfico, designer de móveis e desenhista. “Sua experiência”, diz sobre ele a Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras, “investiga os limites do processo fotográfico tradicional.” Isso se dá por vários métodos, desde esse que estivemos analisando – a variação sobre a forma retangular – até “intervenções diretamente no negativo, múltiplas exposições da mesma película, sobreposições, montagens”. Todos esses recursos operam para ampliar as possibilidades no momento de compor uma obra.

“A composição”, comenta o crítico Pietro Maria Bardi, citado na enciclopédia, “é, para Geraldo, um dever.” Como interagem os elementos no interior de uma foto? Como se dispõem uns em relação aos outros? Que efeito global causam pela maneira com que foram reunidos? Todas essas questões podem se aplicar a qualquer uma das dezenas de imagens que povoam nosso cotidiano – e uma das coisas especiais nos artistas como Geraldo de Barros é o modo peculiar como respondem a elas. Esses criadores nos indicam outros modos de ver.

É como diz Bardi: “Geraldo vê, em certos aspectos ou elementos do real, especialmente nos detalhes geralmente escondidos, sinais abstratos fantasiosos olímpicos, linhas que gosta de entrelaçar com outras linhas numa alquimia de combinações mais ou menos imprevistas e às vezes ocasionais, que acabam sempre compondo harmonias formais agradáveis”. Em outras obras do artista, você pode explorar mais os seus resultados nesse sentido. Por exemplo, nas janelas que formam uma composição de retas e texturas, nos quadros e curvas gerados pelas sombras e pelo metal, na fantasmagórica mulher duplicada.

Geraldo de Barros (1923-1988) estudou desenho e pintura a partir de 1945 e, em 1946, fez as suas primeiras fotos, com uma câmera construída por ele. Em 1947, fundou o ateliê Grupo 15 e se filiou ao Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), núcleo da fotografia moderna brasileira. Em 1949, organizou com o fotógrafo Thomas Farkas (1924-2011) o laboratório fotográfico do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Estando ligado a um grupo socialista e por posicionamento quanto ao papel social da arte, criou em 1954, com o frei João Batista, a cooperativa de produção de móveis Unilabor. Na década de 1980, voltou à fotografia e às interferências gráficas, atuando com sobras de material fotográfico – prática a que também recorreu nos anos 1940.

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