por Vítor Luz

[Este texto integra uma série de relatos produzidos pela equipe de atendimento educativo do Itaú Cultural (IC). Nesses relatos, cada educador comenta sua experiência relacionada a uma exposição apresentada no IC, destacando três das obras presentes na mostra.]

Quantos livros de autores negros você já leu? E de autoras negras? A mineira Conceição Evaristo relembra, cria e eterniza suas memórias em seus contos, ensaios, livros e prosas, ensinando-nos e rememorando a importância da literatura afro-brasileira. Conceição foi homenageada na 34ª edição do programa Ocupação Itaú Cultural. Mestre em literatura brasileira, cunhou o termo “escrevivência”, ou seja, a escrita que vem da vida, da memória, do povo – termo que traduz boa parte de seu trabalho.

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Papel manuscrito por Conceição Evaristo (imagem: André Seiti)

De origem pobre, Conceição Evaristo tem uma história rica em palavras, contos e lembranças. Podia faltar dinheiro e até comida, mas ela cresceu rodeada de contadores de histórias, prosas e poesias. Suas inspirações são as memórias, a ancestralidade e o cotidiano. Com livros publicados em diversos idiomas, Conceição traz narrativas não lineares, com múltiplos pontos de vista, que se misturam com o fantástico. A escritora, que já foi professora da rede pública, marcou presença na Ocupação, literalmente: tanto era a homenageada quanto podia ser vista frequentemente no espaço expositivo por grupos escolares de visita. Que sempre a exaltavam, claro.

Ocupação Conceição Evaristo, em 2017 (imagem: André Seiti)

 

Embora sua história seja importante, a própria Conceição pede que aprendamos sobre ela em sua literatura. Indico, então, três obras que conheci na Ocupação e carrego na memória.

Um dos trabalhos que chamaram minha atenção foi Ponciá Vicêncio. O romance protagonizado por Ponciá registra o amadurecimento da personagem e sua entrada na vida adulta. Experiências fantásticas que a colocam numa situação questionadora de si e da própria realidade são marcadas pela cosmologia africana. Descendente de escravizados, ela encara um passado e um presente de muita dor e sofrimento, de destituição da própria história. Uma mulher que sai de uma cidade pequena para a cidade grande e vive em busca da ancestralidade. Nessa obra, como em outras de Conceição Evaristo, observamos a influência da cosmogonia africana refletindo numa narrativa que se distribui nos pontos de vista de Ponciá e seus familiares. O que a busca de Ponciá por raízes e identidade fala sobre a realidade dos brasileiros? E mais, sobre a realidade da mulher negra brasileira?

Ancestralidade também está presente em Histórias de Leves Enganos e Parecenças. Desigualdade social e violência urbana são retratadas em contos. As histórias breves focam o universo feminino e utilizam o inesperado como ferramenta de discurso. Com enredos simples, porém delicados, a obra trata de assuntos profundos com uma alta dose de realismo, por vezes de maneira sutil. Este é um dos livros de Conceição com muita importância para uma descoberta ou construção de consciência de classe, consciência social, consciência étnica, sobre perceber-se no mundo e em qual momento sociopolítico nos encontramos. Observe que consciência não deve ser sinônimo de conformidade.

Capa do livro Olhos D´Água, de Conceição Evaristo (imagem: reprodução)

“De que cor eram os olhos de minha mãe?” Esse questionamento pode ser nostálgico ou doloroso. A maternidade é tema recorrente na literatura de Conceição Evaristo e se destaca nessa seleção de densos contos. A leitura é feita com os olhos cheios d’água, por coincidência ou não, pois os temas são bastante maduros e de difícil digestão. Do lixão à prostituição e a muito do que se pode encontrar na realidade, Olhos d’Água dói, surpreende e faz pensar. Num país marcado por racismo, misoginia, discriminação racial, movimentos de destituição e apagamento, essa leitura se faz essencial. Afinal, é possível mensurar quais são os efeitos sociais e afetivos do apagamento histórico?

Este breve texto faz parte de minha tentativa limitada de compreensão, como um jovem homem branco, dos textos de Conceição Evaristo, de sua importância, sua trajetória, seu trabalho e sua obra. E sei que é, em si, apenas uma tentativa. Portanto, trago com reverência e respeito essas indicações de leitura. Seus textos são documentos histórico-poético-sociais de uma realidade étnica que a academia historicamente minimiza e tenta apagar. Então, convido-os a ler seus livros, experimentar seus olhares, suas memórias, suas dores, suas fantasias e maravilhas. Longa vida a Conceição e a todas as insubmissas mulheres. As palavras de Conceição Evaristo, sua escrevivência, outras autoras negras e as histórias que contam possuem potência de transformação, são discursos de resistência.

Sobre mim

Com graduação em cinema e linguagens audiovisuais, sou educador do Itaú Cultural. Meu fascínio pela vida e pelo mundo me coloca em busca de conexões e das diversas formas de registrar e contar histórias.

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