por Da Quebrada Pro Mundo com Alexandre Ribeiro

“O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola.”
(Lin Yutang)

Desde a minha chegada à Alemanha, procuro analisar o silêncio das coisas, apreciar as palavras que não são ditas. No silêncio, é possível enxergar alguns olhares curiosos. É possível também sentir os olhares de apreço, os olhares com medo. E, das mais variadas possibilidades, estar longe de casa trouxe um pensamento que me transbordou: o que será que um estrangeiro pensa de mim, do meu povo?

Na coluna #DaQuebradaProMundo deste mês vim compartilhar a visão externa de um Brasil – favelado e racializado – e de como é que o representam.

(imagem: Rede Consular Brasileira no Mundo [fonte: portalconsular.itamaraty.gov.br])

Inicialmente, este texto nasceu de uma indignação: “Fora do Brasil, o que é ‘o brasileiro’?”.

Essa indignação mexeu comigo e me levou ao encontro do trabalho do jornalista Daniel Buarque. Ele pesquisou o Brasil representado no exterior e partilhou os dados no trabalho “Brasil, um país do presente" e em uma dissertação de mestrado. Esta se baseou em uma pesquisa da cobertura da imprensa internacional durante a Copa do Mundo no Brasil em 1950 e em 2014, usando como fontes publicações da Grã-Bretanha (The Guardian e The Economist), da França (Le Monde) e da Espanha (ABC), bem como dos Estados Unidos (The New York Times).

Com os dados, Daniel mostra que a imagem do Brasil mudou consideravelmente entre 1950 e 2014. Surpreendentemente, a cobertura em 2014 foi não apenas mais volumosa, mas também mais cheia de clichês e negativa. O levantamento realizado revelou que 80% dos registros da imprensa internacional usaram lugares-comuns para descrever o país-sede da Copa – assim como o jornalista diz, “evidenciando o desconhecimento e ignorância impressionantes a respeito do que é o Brasil”. Daniel também aponta que uma das principais características da imagem brasileira no exterior é que o país é “decorativo, mas não útil". “Os brasileiros são vistos como fáceis de lidar, festivos, musicais, sensuais e felizes.”

Ao tentar entender a minha imagem para o outro, fui me perguntando diversas coisas. O que nos define para o estrangeiro? Será que somos a visão colonizadora de uma terra atrasada? Somos mesmo esse país narrado pelos historiadores europeus? E quem é o brasileiro que chega tão longe assim para nos representar?

Na realidade, nunca me enxerguei no que as pesquisas apontam. Levando a discussão para um lado mais empírico e pessoal, partilho uma experiência. A minha chegada à Alemanha se deu graças a uma bolsa: Freies Soziales Jahr (FSJ), ou Ano de Trabalho Voluntário Social. Teoricamente, a bolsa se voltou para jovens que não teriam a oportunidade de bancar um ano de intercâmbio. E, por causa disso, o trabalho social é a moeda de troca para a experiência fora do país.

Assim que eu li a descrição da bolsa na internet, achei tudo perfeito, porém os silêncios do mundo explodem quanto mais profundo a gente vai. A realidade é muito diferente. No projeto de inclusão voltado para os países em desenvolvimento, em um grupo de 50 jovens, eu consegui contar o número de negros – ou, como defino com carinho, coloridos – nos dedos de uma mão.

Inevitavelmente, a questão racial é um espelho da nossa sociedade. A cor da sua pele e o lugar de onde você vem são reflexo da dificuldade no seu caminhar. De todos esses 50 jovens, eu sou o único que representa uma exceção à regra (e não só brasileira). Eu sou colorido e vim de uma família pobre.

Ao dizer isso, não pense que estou falando que todos os bolsistas são riquíssimos, despolitizados, filhos de empresários etc. Muito pelo contrário. A maioria faz parte de uma classe média-alta, que de fato entende a sociedade ao seu redor e está em busca de boas oportunidades. Só que, quando a questão é acesso, entender o seu privilégio é também revolucionar. Mas para aplicar empatia com o outro.

Um exemplo prático: aos 21 anos eu já fui office-boy, entregador de produto de limpeza, panfleteiro, jovem aprendiz na Renner, jovem aprendiz em um hotel, marreteiro, escritor, ator... E, nesse mesmo grupo, um moleque brasileiro da mesma idade – só que de outra realidade social – ganhou a bolsa e me contou sem titubear: “Eu nunca tive um emprego, larguei uma faculdade e comecei outra em seguida. Só apliquei pra essa bolsa pra tentar me encontrar”.

Essa fala ecoou na minha mente. Ouvi uma, duas, três vezes em diversos encontros com brasileiros por aqui. De fato, o que o Brasil exporta, em sua esmagadora maioria, é isso. Pessoas de classe média-alta que, no alto do privilégio, usufruem de políticas públicas inclusivas – porque as políticas, em sua base, são elitistas e esmagadoras. Só consegui me lembrar desta letra dos Racionais MC’s:

“Desde cedo a mãe da gente fala assim: 'filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor'. Aí passado alguns anos eu pensei: como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como? Ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez. E sempre foi assim. Você vai escolher o que tiver mais perto de você. O que tiver dentro da sua realidade. Você vai ser duas vezes melhor como? Quem inventou isso aí? Quem foi o pilantra que inventou isso aí? Acorda pra vida rapaz”.

Quais foram os obstáculos que eu pulei – ou que eu dei sorte de não enfrentar – para chegar aqui? Por que essa vaga não foi ocupada por mais um “dos nossos”? Como é que nós vamos derrubar esses muros invisíveis que nos dividem?

E exatamente nessas perguntas sem respostas habita um grandioso Brasil que não tem a sua história contada. Um Brasil negligenciado. No final das contas, a manutenção do privilégio e a falta de acesso ao básico nas pontas da sociedade são o que mantém a nossa história mal representada. Vivemos em um mundo “inclusivo” que cria peneiras na base e, de tanto filtrar, acaba só exportando o que cabe nos “pré-requisitos” – o que infelizmente, na sua maioria, é branco.

A imagem do Brasil pode mudar? Eu não posso dizer que é impossível. Também faço parte de uma luta que busca diminuir a desigualdade cultural e financeira do país. Como é que vamos mudar a narrativa de um Brasil violento, no qual as favelas só matam e não produzem nada? Essa é a importância de contar histórias, de inspirar mudança, inspirar pessoas. Porém, enquanto não trabalharmos com uma educação emancipadora, e de base, da quebrada pra quebrada, seremos o eco de um país vazio. Uma nação que só tenta reproduzir o que consome e se torna mais do mesmo.

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Sol dades

No texto desse mês, o colunista Alexandre Ribeiro relata sua experiência na Alemanha e a saudade de casa