por Naine Terena

 

Se o “outro” indígena estivesse ali na sala de aula com maior ênfase em todas as disciplinas, em diferentes períodos históricos, talvez a presença desses povos no pensamento nacional tivesse prosperado de maneira que não precisássemos fazer um guia de como reconhecer a existência da diversidade indígena em nosso país no século XXI e muito menos repetir, como um mantra, que o índio genérico não existe. O furor com que se busca neste momento compreender o que é a arte indígena talvez reflita um pouco dessa ausência no processo de nossa formação escolar/acadêmica. É como aquele trecho de uma famosa canção: “Eu estava aqui o tempo todo / Só você não viu”. A arte indígena não nasceu nos últimos 10, 20 anos. Ela esteve aqui o tempo todo, mas você não viu (?).

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Origine, de Kássia Borges Karajá

Toda a movimentação em torno dos fazeres artísticos dos indígenas nestes tempos talvez tenha muito a ver com as lacunas da história (oficial) da arte e também com o aparecimento midiático de diversos artistas indígenas. Além disso, reflete as ausências no aprendizado oferecido pela educação formal, aquela em que ficamos envolvidos durante grande parte de nossa vida, da pré-escola à pós-graduação (mas pouco aprendemos sobre a existência dos povos indígenas pelos currículos estabelecidos).

Quero trocar um dedo de prosa acerca da arte feita por indígenas nas últimas décadas, recorrendo a personalidades distantes do mundo das artes, mas pertencentes ao campo da educação, que considero um dos meios que favoreceram o desconhecimento da existência dos povos e, consequentemente, da arte indígena brasileira.

Tenho dedicado os últimos dias a pensar em como o sistema educacional brasileiro se referiu a esses povos e como deverá abraçar essa temática neste momento através da arte – aliás, essa é uma indagação que tenho recebido de estabelecimentos de ensino (na maioria privados). Se temos que reescrever essa tal história da arte, a escola deve ser um local de reconstrução?

Fui ao encontro (virtual) de dois colegas para me aprofundar um pouquinho mais nessa temática e fiz um breve recorte para esta coluna. A Kazumi Munakata, doutor em história e filosofia da educação e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), fiz algumas indagações acerca dos livros didáticos e do ensino da arte. Com Renilson Rosa Ribeiro, doutor em história, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), caminhei nas mesmas questões, levando em conta um dos capítulos de sua dissertação de mestrado, Colônia(s) de identidades: discursos sobre a raça nos manuais escolares de história do Brasil, e outros materiais em que ele tratou da presença indígena no ensino de história.

Kazumi me contou que estudou por muito tempo os livros didáticos e que raramente lida com publicações recentes (o que me interessa bastante, pois me preocupo primeiro em entender o que foi, para então pensar o que será). Apesar de não haver tido como foco de suas análises a temática indígena nesses materiais, afirmou: “Os mais antigos contêm ilustrações tradicionais: desenhos estereotipados ou representações consagradas (como a tela Primeira missa no Brasil, de Victor Meirelles)”. O pesquisador também lembrou: “Uma iconografia que me impressionou foram as ilustrações de um livro [do historiador] Rocha Pombo, que li no secundário, que retratavam uma aldeia indígena com uma oca. Fiquei impressionado com aquela construção enorme e coletiva. Talvez tenha sido por aí que comecei a perceber que existem modos de vida diferentes”.

Perspicaz, o professor propõe uma perspectiva em que os “incluídos” e os “excluídos” estejam frente a frente, em conflito, em luta, mostrando, em suma, o processo pelo qual alguns aparecem como vitoriosos e outros como derrotados, excluídos (são as correlações de forças, poder e disputa de espaços e visualidades).

Renilson falou acerca da presença indígena no ensino de história e que as artes raramente foram consideradas nesses conteúdos. Notem que o universo de fala é o ensino de história, e não das artes propriamente dito, campo no qual a produção indígena poderia ser amplamente debatida, problematizada, apresentada, como um elemento formador importante da sociedade nacional e, para além disso, como latente, viva, representativa de uma imensa diversidade sociocultural existente no Brasil, não somente componente de um processo de mestiçagem cultural.

Encaminho nossa conversa para o contexto das artes, pensando no artigo “Como foi possível a arte na escola?”, escrito por Kazumi. O professor me conta que não é especialista em artes nem em análises estéticas. Explica que apenas escreveu o artigo para investigar por que a arte se tornou uma disciplina escolar (ou melhor, uma atividade escolar) no decorrer do século XIX: “Para isso, tive de fazer uma retrospectiva para entender como aquilo que aparecia como ars, ofício, uma atividade utilitária de artesãos, se tornou A Arte, carregando noções como O Sublime, O Elevado, propiciador da Formação Integral, a Bildung [formação, em alemão] do Homem. A arte, na condição de A Arte, ingressa na escola para possibilitar a formação integral do aluno como partícipe da Humanidade. Claro que essa expectativa é completamente frustrada!”. Kazumi narra que a expectativa da Arte como formação integral se frustra porque ela se tornou território da divergência, da oposição, da dissidência, da dissensão, da desestruturação, às vezes de modo irreverente, subversivo e mesmo obsceno.

E a arte indígena, em qual processo se instaura no momento atual? Estaria ela adentrando esse outro universo, que, nas palavras de Kazumi, teria o mesmo caráter corrosivo? Devemos ficar atentos ao poder da chamada indústria cultural, que neutraliza e absorve as contestações? E as autorias? Quais questões permeiam as ações individuais de artistas indígenas e suas comunidades neste novo tempo? É possível categorizar a arte indígena? Conseguiremos torná-la conteúdo “vivo” em sala de aula?

Para o professor Renilson, seria o momento de não forjar, diante dessa nova geração, ao longo da sua vida escolar, a ideia do índio como unidade étnica padrão, que não atenta para as diferenças e particularidades dos vários povos que habitam o Brasil. Em outras palavras, o “índio didático”, fabricado por gerações de livros didáticos adotados nas escolas brasileiras, era um evento discursivo que servia para explicar o surgimento e o desenvolvimento de um projeto maior – o Estado-nação: ora como um elemento agregador, ora como um entrave.

Esta conversa talvez seja com você, professor(a) de artes. Estaria no ensino da sua área uma das chaves para o entendimento da história indígena, a partir do enorme alcance que a produção artística de autoria dos indígenas tem alcançado nos últimos tempos? E se esse outro não estivesse aqui agora?, indaga este Oráculo.

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Imagem de Kerexu Yxapyry, mulher indígena. Ela está postada no canto direito da imagem e olha para o seu lado esquerdo, com o rosto levemente inclinado. Está usando um cocar. A imagem está com o filtro do podcast Mekukradjá, com tons amarelos. O nome do podcast está escrito do lado esquerdo da imagem em cor laranja. Abaixo, o logo do Itaú Cultural na cor branca.

Kerexu Yxapyry – Mekukradjá

Convidada deste episódio, Kerexu Yxapyry é coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)