De 2 a 28 de setembro, o Festival Arte como Respiro apresenta sua segunda edição. Desta vez, artistas selecionados pelos editais de emergência de música e de artes visuais se juntam aos de artes cênicas.

O evento, que segue totalmente on-line aqui no site do Itaú Cultural (IC), conta com espetáculos de teatro, dança e circo, apresentações musicais e obras de artes visuais.

Veja também:
>> Festival Arte como Respiro: assista à Mostra 1 de artes visuais

Nesta segunda mostra, o cotidiano em meio à pandemia foi o ponto de partida dos 13 trabalhos selecionados. Partindo da autorrepresentação ou da ficcionalização da vida, os artistas exploraram de maneira ampla e diversa esse estado de suspensão social. Se em um primeiro momento, como diante de um espelho, o indivíduo precisou lidar com sua própria presença, revisitando memórias e encarando suas questões e bloqueios, em um segundo momento esse isolamento tornou-se espaço de criação.

As obras ficam disponíveis aqui no site do Itaú Cultural de 9 de setembro (a partir das 18h) a 9 de outubro. Confira abaixo a programação – cada vídeo tem link próprio.

Na obra Estilha, de Lorena da Silva Dantas e Michel Silva dos Santos, o trabalho gráfico é o fundo para as vozes de personagens que confessam seus medos frente a um futuro desconhecido. É no confinamento do lar também que o personagem de Mindscape, de Tom Silveira, mescla a dança ao diário do bailarino Douglas Jung em forma de relato lúdico.*

Estilha
(Lorena da Silva Dantas e Michel Silva dos Santos, 2020, 6min)

Uma obra audiovisual que reverbera questões subjetivas e íntimas em relação à condição de isolamento social vivida durante a pandemia de coronavírus. A construção da obra se dá de forma visual e sonora. São fotografias realizadas por Lorena, autora da obra, ao observar as vistas das janelas de sua antiga casa, a casa de seus pais, em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo da Bahia. As imagens são montadas e remontadas no quadro a partir de fragmentos e estilhaços, exibindo apenas trechos e partes daquelas vistas, enfatizando as faltas e as possibilidades. Para o som, são utilizados trechos de áudios de WhatsApp de
quatro mulheres que estão em isolamento social em diferentes cidades do Brasil.

Lorena da Silva Dantas nasceu em Nazaré das Farinhas (BA). É artista visual, graduada pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB). Sua trajetória na academia possibilitou o trânsito em diversas linguagens artísticas, lançando olhares sobre temáticas recorrentes como corpo, natureza e feminino.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

Mindscape
(Tom Silveira, 2020, 4min)

Mindscape retrata o refúgio da mente criativa de Douglas Jung, bailarino e coreógrafo formado pela Salzburg Experimental Academy of Dance, na Áustria. Douglas apresenta uma mistura de abordagens do seu cotidiano que estimulam o entendimento do movimento contínuo e dos fundamentos da dança contemporânea.

O filme é um recorte lúdico em que as palavras se misturam às imagens e são pura autorreflexão do artista. O vídeo faz parte do projeto Quarantine tales, da Casa Átomo Filmes, que visa aproximar as pessoas pelo vídeo na criação de conteúdo relevantes e autorais.
A partir da visão de 13 diretores que questionam seu papel como artistas no momento que estamos vivendo, 13 vídeos contam histórias sobre a quarentena.

Tom Silveira usa este nome artístico para assinar os trabalhos e atua como diretor e diretor
de fotografia na produtora Casa Átomo Filmes, focado em publicidade, campanhas de moda e clipes musicais. Atuou como diretor de fotografia no curta documental A vida como rizoma, de 2014.

[classificação indicativa: 12 anos]

Assista aqui.

Alguns artistas ficcionalizaram suas experiências, com o intuito de refletir sobre suas identidades e relações pessoais. Na obra Rituais Virtuais, Silas Souza de Lima filma o cotidiano fictício (ou não) de uma travesti que está em seu lugar da intimidade. Numa sociedade que isola pessoas trans, viver em isolamento é lugar comum.*

Rituais Virtuais
(Silas Souza de Lima, 2020, 4min)

Rituais virtuais mostra o cotidiano fictício (ou não) de uma travesti e seu amor próprio. Numa sociedade que isola pessoas trans, viver em isolamento é lugar-comum. O artista traça um paralelo entre viver sozinho e só viver. A “arte trans” coloca a solidão como matéria-prima e companheira constante, trazendo amor real apenas no virtual. Coloca o isolamento como um enfrentamento de si mesmo e suas conseguintes. Afinal, enfrentar-se é tarefa difícil, pois exige enxergar-se com todas as suas nuances. O artista mostra, ainda, que a atenção e o amor dados a essas pessoas não existem ou estão sempre à beira de acabar.

Silas Souza de Lima deseja transformar o mundo por suas óticas carregadas de negritude e sustentabilidade. Fotógrafo, amante das imagens e das cenas cotidianas, seu trabalho tem por base a negritude, o “trivial” e temáticas de gênero, sexualidade e raça, partindo da sua vivência de homem trans negro.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

No vídeo-poema Isolamento do Eu em Mim, do artista Sandro Aragão, ele se coloca em cena para entender seu próprio processo de pertencimento. Já em Telaranã, a atriz Carolina Correa tenta manter o equilíbrio filmando seu refúgio durante dias e dias, em companhia de aranhas e da solidão.*

Isolamento do Eu em Mim
(Sandro Aragão, 2020, 3min)

O trabalho é um registro em formato de videopoema sobre o mergulho que o artista faz em si mesmo durante o período de isolamento. Embasado no conceito “escritas de si”, Sandro se coloca como personagem dentro da obra, ficcionalizando sua experiência com o intuito de refletir sobre identidades, pertencimento e relação familiar a partir de duas plataformas distintas: o poema e o audiovisual.

Sandro Aragão é formado em letras pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Mestrando em literatura brasileira pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisa sobre literatura homoerótica. Vencedor do 72HORAS RIO Festival de Filmes com o filme Teresa na categoria Melhor Filme com celular, hoje se dedica a projetos de fotografia e audiovisual.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

Telaranã
(Carolina Correa, 2020, 3min)

Uma atriz brasileira vivendo na Espanha consegue voltar para o Brasil antes do fechamento das fronteiras em meio à pandemia. Dias e dias filmando seu refúgio, tendo como companhia apenas aranhas e a solidão. Um encontro virtual com um diretor e um músico transformou essas imagens em um vídeo autobiográfico de sua atual realidade.

Carolina Correa é atriz, diretora, performer e coordenadora internacional do Corredor Latinoamericano de Teatro. Dirige e atua em trabalhos auto ficcionais. Pós-graduada em
teatro dos sentidos pela Universidad de Girona, na Espanha, e pós-graduada em performance e arte pela Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

No isolamento o artista também refletiu sobre a sociedade, enfrentando questões sociais contemporâneas. A ânsia pela manutenção da produtividade está presente no vídeo-performance Rõm-ófice, de Érica Storer de Araújo. O papel da mulher também ganha destaque em Quais São os Vírus da Nossa Sociedade?, de Ana Clara Poltronieri e Daniel Lupo, apontando sobre o isolamento das mulheres que sofrem com a violência doméstica. Em Um Sonho Nada Mais É que um Sonho, de Luiza Guimarães de Castro, Cecília Pompéia e Marina Farias Rebelo, quem dá voz ao relato é a mulher sobrecarregada pelas funções domésticas, pessoais e profissionais.*

Rõm-ófice
(Érica Storer de Araújo, 2020, 3min)

Rõm-ófice é uma construção improvisada, elaborada a partir das definições de home office (escritório doméstico) e treadmill desk (mesa de escritório com esteira). Ambas as denominações, apropriadas da língua inglesa, fazem parte do universo corporativista e aos poucos invadem os limites do espaço privado. Desta forma, o estado de isolamento social reverbera algo que não é novo: a ânsia por produtividade, autossuperação e autocobrança.

Tudo é possível. Para o sociólogo coreano Buying-Chul Han, tal violência da positividade,
no ritmo capitalista, resulta em uma sociedade de superprodução, superdesempenho e supercomunicação, na qual não há motivos suficientes para o descanso.

Érica Storer de Araújo é formada em artes visuais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Participou de residência artística no Institut Supérieur des Beaux-Art, em Besançon, na França, integrando programações de exposições e eventos de performances na cidade, assim como nos países vizinhos Alemanha e Itália.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

Quais São os Vírus da Nossa Sociedade?
(Ana Clara Poltronieri e Daniel Lupo, 2020, 3min)

Quais são os reais vírus da nossa sociedade? Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que houve aumento de feminicídio e violência doméstica em
março de 2020. O lugar mais perigoso é dentro de casa.

O vídeo foi feito no período da quarentena para levantar o debate de que o isolamento social diante da atual pandemia é importante, mas o isolamento para as mulheres que sofrem com violência doméstica tem sido um beco sem saída. Elas ficam desamparadas, sofrendo violência e vivendo em isolamento com seus agressores. A proposta é colocar em pauta os problemas sociais recorrentes que em momentos de pandemia são menos abordados: não só a violência contra a mulher mas também a depressão, a síndrome do pânico, a ansiedade e outros.

Daniel Lupo é cinematógrafo e diretor, trabalha profissionalmente no mercado audiovisual desde 2004 somando experiências em programas de televisão, culinária, videoclipe, moda e cinema. Hoje foca seu trabalho em projetos que abordam questões sociais e políticas em filmes documentários e ficção.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

Um Sonho Nada Mais É que um Sonho
(Luiza Guimarães de Castro, Cecília Pompéia e texto de Marina Farias Rebelo, 2020, 4min)

Quando o recolhimento é imposto ao corpo, a cabeça não necessariamente silencia. Diante dos processos que nos assolam, a sociedade é levada a se repensar. O silêncio do isolamento se choca com os pensamentos que passam barulhentos e constantes nos corpos em quarentena. Os femininos, por sua vez, mais escolhidos socialmente para a manifestação do cuidado, seguem a borbulhar, porém, agora, em confinamento. O vídeo deste projeto traz a complexidade e a pluralidade do encontro estético de três mulheres: o texto de uma mulher preta, na narração de uma atriz branca e as imagens pensadas e registradas por uma mulher lésbica. Os múltiplos braços neste trabalho reforçam que, em momentos de caos, a conexão entre mulheres poderá trazer resultados afetuosos e profundos, mesmo em uma pandemia.

Marina Farias é mulher preta, feminista, mãe de duas crianças e doutoranda em literatura brasileira – pesquisando a escrita e a subjetividade de mulheres pretas. Luiza Guimarães é atriz, recém-chegada a São Paulo. Nos últimos dois anos esteve em cartaz pelo Brasil com o espetáculo de rua Entrepartidas.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

Estar consigo mesmo também pode ser um lugar de criação e experimentação. Em Night & Day, Ilê Sartuzi fez de seu apartamento um personagem principal, e a pequena metragem do lar transformou-se em lugar mental, encerrado em si mesmo – delimitado e infinito. O artista Lucas Bambozzi faz uma junção de 3 situações entre o lá fora e o aqui dentro, criando o vídeo-tríptico De Fora pra Dentro – de Dentro pra Fora . O momento de pausa forçada dá a dimensão da insignificância do homem frente à natureza em uma sequência de imagens captadas por drone no filme P&B O Mundo que Habita em Mim, do Coletivo Meia Lua.*

Night & Day

(Ilê Sartuzi, 2020, 5min)

Uma câmera dessubstancializada percorre um trajeto dentro de um apartamento. Em seu lento e contínuo movimento, observa um ambiente marcado pelo sentimento de ausência. No desenvolvimento do percurso, a câmera penetra um outro ambiente – idêntico ao anterior –, mas envolto pela noite. Explora este espaço por meio do mesmo percurso estabelecido em um tempo dilatado de devaneio, quase mântrico. O vídeo, portanto, reitera um mecanismo de repetição em loop pela continuidade desses dois espaços contíguos e idênticos. O cruzamento desses ambientes, que esmiúçam nada, aponta tão somente para uma atenção sem foco que, sucessivamente, retorna ao ponto de início e embaralha as diferenças de tempo em um mesmo espaço.

Essa zona torna-se também um lugar mental encerrado em si mesmo, delimitado e infinito.

Ilê Sartuzi é artista formado pela Universidade de São Paulo (USP). Participou de exposições em instituições como SESC (Ribeirão Preto, 2019; DF, 2018); Centro Cultural São Paulo (2018); MAC-USP (2017); Museu de Arte de Ribeirão Preto (2017; 2015); e Galeria Vermelho (2017; 2018; 2019).

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

De Fora pra Dentro – de Dentro pra Fora
(Lucas Bambozzi, 2020, 5min)

O vídeo-tríptico é uma junção de três situações entre o lá fora e o aqui dentro. Há sombras se movendo nas paredes. A luz, enviesada pelas superfícies irregulares das janelas, faz o artista se sentir dentro de uma câmera fotográfica. São formas distorcidas, monocromáticas, às vezes abstratas, que trazem para dentro o que acontece nas árvores e nas ruas, a partir do que se move.

Vemos na tela os vultos coincidirem com o piano que toca uma música composta por
Fernando Velázquez, enquanto outra música toca ao fundo enquanto a gravação é feita, somada à edição entonando a existência de uma fresta por onde entra o mundo pela janela.
Há uma pequena tempestade se formando lá fora. Os sentimentos oscilam entre a sujeição
e o enfrentamento diante do que podem ser as catástrofes que habitam nossas insônias.

Lucas Bambozzi é artista e curador independente, com trabalhos já exibidos em mais de
40 países. Desde os anos 1990 explora novas possibilidades de arte, envolvendo vídeo e novas mídias, tendo sido um dos iniciadores do Festival arte.mov e dos projetos Labmovel, Multitude, ALTav, Labmovel e outros.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

O Mundo que Habita em Mim
(Coletivo Meia Lua | Fabiano R. Rocha & Tatiana Blum, 2020, 4min)

Um animal explorador, expansionista por natureza, em um turbilhão recluso de um tempo desconexo, uma pausa forçada que dá a dimensão da sua insignificância. Como um voyeur bailarino, em sequência contínua, mundo e persona dialogam em um jogo de pressão e alívio, um contorcionismo entre energias internas e externas, que ao mesmo tempo nos cercam e nos cerceiam.

O Coletivo Meia Lua é um duo: Fabiano Rocha, artista visual, com experiência em produções multimeios, e Tatiana Blum, atriz. Um casal com trabalhos cotidianamente distintos, que durante a quarentena soma suas visões em experiências visuais.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

Em Senso Comum, de Gabriel Tantacoisa, o artista criou um duplo de si mesmo para provocar que a nossa principal ameaça talvez não seja só o vírus mortal, mas o próprio homem. Já em O Vazio Iluminador, de Francisco Ferreira de Freitas Filho, o tédio do confinamento transformou os objetos e espaços vazios de uma geladeira em obra audiovisual.*

Senso Comum
(Gabriel Tantacoisa, 2020, 3min)

Ao reencontrar o livro O Homem Duplicado, de José Saramago, o artista foi tomado pelo desejo de discutir os temas abordados na publicação. No livro, uma das críticas que identificamos é a perda da identidade na pós-modernidade. Hoje, quando vemos uma unificação de desejos um Ocidente que se comporta de forma padronizada, o filme propõe debruçar-se sobre esta discussão. Estamos nos tornando um só, e a nossa principal ameaça talvez não seja só o
vírus mortal.

Gabriel Tantacoisa é artista visual e ator formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Trabalha desde 2012 com desenho, fotografia e, principalmente, audiovisual, com produções que pensam o cinema no campo expandido, instalações, filme ensaio e autoficção.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

O Vazio Iluminador
(Francisco Ferreira de Freitas Filho, 2020, 11min)

Em um momento em que passamos por mudanças de relações e conceitos, e em que o lugar da obra de arte passou a ser determinado por uma nova configuração que envolve o trabalho como obra de arte e como geração de renda do homem, o vídeo investiga as relações da arte como trabalho e alimento do artista, abrindo novos caminhos e portas para infiltrar nos lares seus pensamentos sobre a atual conjuntura da humanidade e o valor da arte e do artista consolidado.

Francisco Ferreira de Freitas Filho é músico-educador, pesquisador e luthier, desenvolve  projetos de construção de instrumentos  populares e objetos  sonoros há 20 anos em Juazeiro do Norte (CE), com exposição de instrumentos no Centro Cultural BNB de Sousa, na Paraíba. Também ganhou editais de fotografia e realizou exposições.

[livre para todos os públicos]

Assista aqui.

Acesse a programação completa do Festival Arte como Respiro.

*Comentários feitos pela equipe curatorial de artes visuais do Itaú Cultural.

Veja também