por Winnie Bueno

 

Quando recebi o convite para assinar esta coluna, fiquei refletindo durante muito tempo sobre as razões que me levam a escrever. Eu sempre escrevi, assim como desde muito pequena sempre li. Da mesma forma que a leitura me foi refúgio, escrever era um lugar seguro onde eu podia me expressar sem ser mediada pelas violências cotidianas do racismo e do sexismo e sem os controles externos que constantemente se estabeleciam com o objetivo de frustrar a consciência que eu tinha de mim mesma.

Winnie Bueno estreia como colunista no Itaú Cultural (imagem: divulgação)

Escrevia cartas, poesias, contos, e as aulas de redação eram as que eu mais gostava. A pontuação em redação no Enem salvou minha péssima nota de matemática e me credenciou a um dos cursos mais concorridos no ano do meu processo de seleção para a universidade. A escrita, assim como a leitura, me proporcionou muita coisa, abriu inúmeras portas e me ajudou a compreender muitos sentimentos que o sentir por si só não dava conta de precisar.

Conforme fui me embrenhando nos estudos sobre mulheres negras, passei a compreender que escrever era mais que um exercício de pôr palavras num papel, ou mais recentemente numa tela, em branco. Para mulheres negras a escrita é uma experiência de determinar a partir da própria experiência sentidos para a própria vivência. Aquilo que Conceição Evaristo nomeia como escrevivência e que para nós se concretiza na carne, no corpo, no sentir.

Conceição Evaristo, homenageada da 34ª Ocupação no Itaú Cultural. foto: André Seiti

Inicio esta coluna falando um pouco de por que escrevo e como a escrita me permitiu encontrar o sentir de outras mulheres negras, das que vieram antes de mim, das que fazem parte da minha geração e das que virão. Escrevo para expressar todos os sentimentos que borbulham em mim, escrevo também para ver minha indignação em palavras, escrevo para guardar memórias de um tempo que já foi e ainda é, mas que tenho esperança que um dia será apenas registro de resistência. Essa resistência histórica de mulheres negras que está no registro da oralidade, nos relatos que ouvimos das nossas mais velhas, mas que também toma forma na literatura produzida por mulheres negras. Essa resistência que está organizada em uma memória mítica, mas que também se inscreve na História, na vida de mulheres como Tereza de Banguela, Maria Felipa e Esperança Garcia. Uma resistência que a escrita permite registrar pela persistência que as mulheres negras brasileiras mantiveram para poder ser lidas como escritoras, teóricas, contadoras de histórias, poetisas, colunistas.

Escrever para mim é a manutenção de um legado que me foi passado pela coletividade de mulheres negras. É uma forma de nomear minha própria história me permeando pela trajetória de outras mulheres como eu.

A escrita, que por tanto tempo nos foi negada ou suprimida, hoje é uma ferramenta de saber e de determinação. É uma forma de estar no mundo e, a partir de agora, uma forma de você me conhecer através do que eu mesma tenho a escrever sobre mim e sobre o mundo.

As palavras são meu mais precioso ativo,

aqui, irei compartilhar esses ativos com vocês.

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