por Heloísa Iaconis

O nome dele é Severino. Severino de Maria. Severino da Maria do finado Zacarias. Severino da Maria, do Zacarias, lá da Serra da Costela, limites da Paraíba. Severino como vários outros, tantos com cabeças grandes, pernas finas e sangue de pouca tinta. Esses muitos Severinos, esvaziados de individualidade, viram um nas estrofes de João Cabral de Melo Neto: o escrito mais conhecido do autor pernambucano conta a morte e conta a vida de um retirante do sertão nordestino, personagem que marca fundo a literatura e a realidade brasileiras.

E é esse sujeito, que migra na presença do leitor, que estava presente, em forma de fragmentos, na apostila de português do menino Ivan Marques: o hoje professor, docente do curso de letras da Universidade de São Paulo (USP), bem se lembra do seu primeiro contato com a arte de Cabral. Contudo, após essa apresentação do tempo de garoto, demorou para que o educador se reencontrasse com a obra do mestre exigente. Conheceu Carlos Drummond de Andrade, conheceu Manuel Bandeira, conheceu demais nomes até chegar, de novo e em definitivo, ao poeta cujo falecimento completa, em 9 de outubro de 2019, 20 anos. O centenário de João, aliás, está perto também, em janeiro de 2020, ano em que Ivan pretende lançar uma biografia, editada pelo selo Todavia, do construtor de versos.

Pois é assim que se comportava o escritor ante seu ofício: um lutador das palavras, avesso ao derramamento romântico, aos clichês e lugares-comuns, inventor disposto a constituir uma visão racional do fazer poético – o que em nada significa que o resultado de tal método seja frieza pura. Mas, para alcançar esse processo obstinado, João Cabral percorreu um caminho grande: ainda em Recife, aos 22 anos, estreou com Pedra do Sono (1942), título cheio de imagens surrealistas, algo à la Salvador Dalí.

Logo depois do lançamento número 1, mudou-se para o Rio de Janeiro e da capital foi para a Espanha, onde assumiu um posto diplomático no Itamaraty. Longe do Brasil, morando com uma família recém-formada e convivendo com artistas como o pintor Joan Miró, leu uma reportagem sobre a baixa expectativa de vida em Pernambuco: eis o gatilho que levou o poeta a trazer uma dimensão social para a sua produção. Dessa maneira, a obsessão pela palavra exata juntou-se a um viés crítico das desigualdades nacionais, os dois pilares do “trabalho de arte”, uma poesia concisa, econômica, que não surge do sopro das musas, é consequência de um planejamento.

Dotado de uma justeza matemática, distante do império do eu, Cabral, apesar de se sentir deslocado entre os seus pares, exerceu influência enorme na geração concretista e manteve uma teia de amizades que incluía, por exemplo, Vinicius de Moraes, o poetinha do amor exacerbado. Falar de João é, portanto, entrar no profundo do engenho literário, uma máquina que comove, emociona e faz emergir, da disciplina, matéria humana.

E é esse sumo de gente, esmerado até o último suspiro da língua, que se encontra nos cinco livros destacados por Ivan Marques: do legado de João Cabral de Melo Neto o pesquisador ressalta volumes que possibilitam uma percepção mais ampla do projeto cabralino. Confira a lista que serve como um norte para quem deseja ler e reler, de novo e sempre, o autor que, segundo Ivan, “dá uma lição de consciência sobre a própria obra, de entendimento da arte enquanto produto da inteligência, ensinamento importante para todas as manifestações culturais brasileiras”.

O Engenheiro (1945). Um feito do jovem Cabral que já evidencia, de um jeito claro, a começar pelo título, a sua proposta estética: mesmo que haja ainda um pouco do universo surrealista, os poemas são elaborados com esquadros, marco primeiro do que virá a ser a sua técnica.

Cão sem Plumas (1950). Tem-se aqui uma inflexão, uma virada na trajetória do poeta: o Rio Capibaribe e os moradores do entorno confundem-se com a lama e, a partir desse contexto espesso, concebe-se uma reflexão aguda acerca da rotina agreste.

Morte e Vida Severina (1955). Concebidas para serem de compreensão rápida, as estrofes a respeito de Severino cumpriram a missão: feitas originalmente para o Grupo Tablado, a história voltou aos palcos, na década de 1960, com uma montagem famosa musicada por Chico Buarque. Trata-se do texto mais popular de João Cabral, aquele que permanece em apostilas escolares país afora.

Educação pela Pedra (1966). Todo arquitetado, com simetria rígida, o título pode ser tomado, de acordo com o professor Ivan Marques, como uma matriz da poesia de João. Entre os poemas, há “Num monumento à aspirina”, uma ode ao mais prático dos sóis, remédio que aplacava a constante dor de cabeça que acometia, de verdade, o artista.

A Escola das Facas (1980). Por fim, a indicação de um livro com uma temática incomum para o escritor: a sua memória pessoal. Ao revolver o passado, os dias de criança, encontra um conteúdo bonito, capaz de bastante dizer sobre quem foi João Cabral de Melo Neto.

Saiba mais sobre João Cabral de Melo Neto na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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