por Milena Buarque Lopes Bandeira

 

A impessoalidade e o distanciamento das relações nas grandes cidades, superpopulosas e, contraditoriamente, repleta de espaços públicos vazios, estão no centro da ideia do Free Seat, projeto nascido em Berlim, na Alemanha, em 2016, que mistura música e intervenção urbana.

Praça, rua, metrô, esquina. Um piano e uma cadeira. Pedro Carneiro Silva senta-se ao teclado e, com o aviso “have a seat” (“pode se sentar”), convida quem passa para uma experiência musical. “Quando morei na Alemanha conheci o Ardalan Aram, que é um cineasta alemão-iraniano; costumávamos conversar sobre as questões de viver na cidade e um tópico recorrente era a impessoalidade. Começamos a pensar em uma proposta que dialogasse com isso e que de alguma forma criasse um espaço de intimidade no meio da cidade”, conta Pedro, pianista e autor do projeto contemplado pelo Rumos 2017-2018.

Para a aproximação, Pedro escolheu a música, primeiro sentida e depois racionalizada, como forma de quebrar barreiras. Para cada pessoa que aceita o convite o pianista compõe um novo som, inspirado naquele momento, no ambiente e no que aquela pessoa lhe emite. Pedro conta que atitudes, reações e a atenção influenciam na composição que está sendo criada e é aberta para todas as possibilidades daquela experiência. “Muitas vezes elas não sabem, mas as músicas são feitas na hora. É uma busca por se comunicar com pessoas que não conheço através da música, criar uma música que dialogue com ela. É bom lembrar que, fora o aviso escrito no chão, não há nenhuma comunicação verbal entre nós”, explica.

Com os registros feitos por Ardalan, Free Seat ganhou enorme visibilidade em 2017, com mais de meio milhão de visualizações e destaque em jornais e portais pelo mundo todo. Agora, no Brasil, as intervenções foram programadas para ocorrer em Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR). “Estamos nos preparando para ir a Curitiba e ao Rio de Janeiro nos próximos dias. Fizemos uma experiência no centro histórico de Recife há algumas semanas que foi muito especial. Tivemos uma grande variedade de pessoas. Morador de rua, turista, garçom, empresário, e fazer uma proposta em que todos se sintam à vontade para participar, especialmente no momento atual que estamos vivendo no país, é muito rico para nós”, diz o músico.

Uma das características do projeto é a espontaneidade que a surpresa gera no local. Não há como saber ou se preparar para participar das intervenções. A ideia é que toda a troca aconteça no momento do encontro, sem qualquer tipo de programação. “Quando começamos o projeto, eu não tinha ideia do que poderia acontecer e que tipo de música poderia surgir. Falávamos entre nós ‘bom, o pior que pode acontecer é ninguém se sentar e está tudo bem’. Depois que colocamos a cadeira demorou 40 minutos para a primeira pessoa se sentar (o vídeo dela encontra-se disponível on-line). Descobri ali que podia usar a música para me comunicar e isso mudou completamente a relação que tenho com a música e com a cidade.”

A opção por abrir um espaço de afeto no espaço urbano gera todo tipo de envolvimento. Pedro conta que já encontrou pessoas abertas e outras – ainda que tenham topado a experiência – mais tímidas. Já tocou para pessoas tensas, agressivas energeticamente, desconfiadas, calmas e apressadas.

“As experiências mais marcantes são aquelas que sinto que algo transformador ocorreu naquele momento. Teve o caso de um homem que ficou um bom tempo andando em volta do espaço fazendo piadas e ridicularizando; quando ele se sentou, a atitude e envolvimento dele mudaram completamente ao longo da música. Já dividi momentos de emoção com pessoas que choraram e também momentos difíceis, como o de um homem com raiva que ficou me xingando em alemão”, diz o pianista. Os registros feitos no Brasil serão disponibilizados no YouTube e na página do projeto no Facebook a partir da metade de 2019.

Sem uma palavra sequer, música, cidade e olhares se coadunam com a singularidade de um instante.

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