por Milena Buarque Lopes Bandeira

Planta milenar e muito popular tanto em cerimônias quanto em aspectos da vida cotidiana chinesa, o bambu é comum e presente em quase todos os continentes, com exceção do europeu. No núcleo rural Córrego do Urubu, em Brasília, há 16 anos a planta é matéria primordial na elaboração de instrumentos acrobáticos artesanais e tema de pesquisa da Cia. Nós no Bambu. No último mês, após 30 dias em residência, um grupo de nove artistas brasileiros e latino-americanos lançou uma rede mundial dedicada à "arte corpo bambu".

Com o propósito de promover o desenvolvimento humano e artístico por meio das possibilidades de interação criativa entre corpos humanos e diferentes formas de bambu, a rede nasce como um resultado não planejado da Residência Nós no Bambu (RNNB), projeto de compartilhamento e multiplicação da arte corpo bambu. Formulada por Poema Mühlenberg, cofundadora da companhia, a residência reuniu artistas da Argentina, do Brasil, da Costa Rica, do México e do Peru. “Cada pessoa que encontra o bambu se questiona sobre o que pode fazer com ele. No nosso país, a gente está tendo problemas com barragens, oriundos da extração de minério. Com o bambu, não precisamos de ferro: apenas precisamos plantá-lo”, diz Poema.

Segundo a artista e produtora, a Cia. Nós no Bambu surgiu de maneira bem informal, há mais de uma década, do encontro de praticantes do Sistema Integral Bambu, criado pelo professor de educação física Marcelo Rio Branco no fim dos anos 1990. “Quando eu o conheci, ainda não era um sistema. Era uma prática corporal – em estruturas de bambu – cuja possibilidade de desenvolvimento, por exemplo, é a arte. Eu e as cofundadoras da companhia nos conhecemos praticando e começamos a receber convites de amigos para apresentações”, explica Poema. Em 16 anos, a Cia. Nós no Bambu apresentou seis espetáculos.

“O bambu é o elo entre as duas linhas de trabalho que a gente segue no Circo os Kaco: o próprio circo e a permacultura. Eu já tinha pensado em usar o bambu de forma artística, mas não tinha o conhecimento, a experiência. Acho que todo ser humano tinha de se preocupar em viver a permacultura, que é um conceito, um estilo de vida: o uso da natureza de forma sustentável.”

- Kadu Oliviê (Tocantins, Brasil) é palhaço, educador e presidente da Associação Cia. os Kaco, idealizador e realizador do Festival de Circo de Taquaruçu, único festival desse tipo na Região Norte do país.

Sentindo-se um “animal em extinção”, a artista pensou na residência durante uma conversa com Bel Toledo, agente da companhia em São Paulo. “A gente estava começando a experimentar essa coisa do agenciamento. E aí ela falou que o edital estava aberto e que a gente tinha todo o perfil. Eu nem acreditava muito que iria dar certo. Agora gerei meus descendentes”, conta, entre risos, a produtora.

Além da representatividade geográfica e de certo equilíbrio de gênero, Poema buscou artistas que pudessem replicar e multiplicar o conhecimento da arte corpo bambu em suas respectivas regiões. Durante um mês, Beth Martins, Bruniele Ferreira, Cesar Hernandez, Gerlídia Tavares, Helder Lacunza, José Alfaro, Kadu Oliviê, Lucila Ruiz e Mariana Duarte, selecionados para a residência, tiveram de conciliar a rotina prática diária com momentos dedicados à realização de resumos – escritos e em vídeo – e aulas semanais de dez minutos de duração cada uma. Na visão de Poema, a metodologia proposta evitava o esquecimento.

“Em uma imersão, você tem esse privilégio de estar em um lugar, ao lado do local de trabalho, e aqui, no meio da natureza. Você pode focar só isso e o rendimento é maravilhoso. A residência é um mergulho. Confiança, troca, compartilhamento e sabedoria de cada arte.”

- Beth Martins (Rio de Janeiro, Brasil) é atriz, coreógrafa e bailarina, fundadora e integrante do elenco e do núcleo diretor da Intrépida Trupe.

“O processo, para mim, foi excelente e acima das minhas expectativas. Foi muito legal ter a receptividade deles em relação ao conhecimento, sentir que eles valorizaram esse conhecimento, o qual estava, até então, muito restrito. A arte corpo bambu comprovadamente traz alegria, saúde e bem-estar, além de ser sustentável”, afirma a produtora.
Manter a troca entre os artistas após a residência, conectar novas pessoas, compartilhar meios e modos de produção, gerar conhecimento e interesse pela cultura do bambu estão entre os principais objetivos da Rede Corpo Bambu. “A rede fortalece esse encontro para que isso não se perca, para que a gente acompanhe essas reverberações. Uma vez que você representa uma rede, você ganha uma autoridade local. E eles são os representantes, em suas localidades, da arte corpo bambu. Assim, a gente espera colaborar para que futuros projetos sejam potentes.”

“Aprendemos como as plantas crescem na natureza, como podemos identificar as que são boas para trabalhar com o corpo e todo o processo da 'bambuzeria'. É uma disciplina nova e diferente. Eu nunca havia tido contato com o bambu antes. No Peru, só tinha visto em construções e em bicicletas, mas nunca na arte com o corpo.”

- Helder Lacunza (Lima, Peru) é artista de circo, graduado na escola profissional La Tarumba, fundador da empresa Circo Andante e professor de arte circense.

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