por Milena Buarque Lopes Bandeira

No início do século XX, aos postos mais baixos da Marinha brasileira – ocupados, no geral, por negros e mestiços – chibatadas eram dadas como forma de punição e tortura, uma prática sistemática e simbólica de um país que tinha, até pouco tempo antes, o regime da escravidão como base social e econômica. Em 1910, no entanto, com uma punição ao marujo Marcelino Rodrigues Menezes, uma revolta passou a ganhar corpo, encabeçada por João Cândido Felisberto, posteriormente conhecido na historiografia nacional sob a alcunha de Almirante Negro.

É a história do homem para além do mito – 50 anos depois de sua morte – que será contada no espetáculo Turmalina 18-50 – os Últimos Dias do Almirante Negro em Terra, projeto apoiado pelo Rumos Itaú Cultural. Montagem da Cia. Cerne, sediada em São João de Meriti (RJ), mesmo município onde o militar viveu seus últimos dias, a peça pretende apresentar João Cândido, líder da conhecida Revolta da Chibata, dando destaque à tentativa de apagamento de sua história e às várias injustiças sofridas em razão de sua atuação num dos mais importantes episódios da história brasileira.

Após cinco anos de fundação, a companhia decidiu se debruçar sobre a própria cidade, local nunca levado ao palco pelo grupo. “Até mesmo o número de apresentações realizadas em nossa cidade nesse período era bem pequeno”, explica Vinicius Baião, diretor da Cia. Cerne. “Eu já tinha uma proximidade com a história de João Cândido, herói popular que viveu muitos anos em São João – fato que nem mesmo os meritienses sabem. Quando descobrimos que em 2019 seria completado o cinquentenário de sua morte, sentimos que tínhamos a história certa para contar. Era a hora de apresentar João Cândido a São João e São João ao país.”

A revolta comandada pelo Almirante Negro aconteceu 22 anos após a Lei Imperial no 3.353, conhecida como Lei Áurea, diploma que oficialmente extinguiu a escravidão no Brasil. Em caráter oficial apenas. A chibata e os castigos físicos seguiam ditando as regras e anunciando a autoridade de quem mandava. Na opinião de Vinicius, a Marinha foi a "última fazenda da escravidão" no país. “Para pôr fim a isso, foi preciso que marinheiros negros se rebelassem e desafiassem a nascente república”, conta.

Para a concepção do espetáculo, atores e diretores realizaram pesquisas teóricas sobre o evento histórico e conversaram com o senhor Candinho, único filho ainda vivo de João Cândido. Em agosto, passaram a construir coletivamente cenas e caminhos dramatúrgicos. “Durante esse primeiro momento de criação artística, o debate histórico e ideológico entre nós também foi bastante rico, o que transformou nossa sala de ensaio num espaço de incessante troca e aprendizado”, afirma o diretor. O grupo pretende entrevistar nas próximas semanas alguns dos netos do militar.

João Cândido foi perseguido por toda a sua vida por causa do que realizou naqueles dias de 1910. Foi expulso da Marinha, preso e internado como louco. “Morreu pobre e esquecido em uma cidade também pobre e esquecida da Baixada Fluminense. Contar sua história hoje é a possibilidade de criar condições para corrigir a injustiça praticada contra ele e contra a sua memória por tanto tempo pelos ‘Brasis’ oficiais”, afirma Vinicius.

Apresentações de Turmalina 18-50 já estão marcadas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, estado natal do marinheiro.

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