Por Marcella Affonso

Neste mês de março, no dia 12, a cidade de Belo Horizonte (MG) ganhou um novo equipamento de cultura focado tanto na produção e na disseminação de obras cinematográficas independentes como na discussão sobre elas. Trata-se do Espaço Cultural Filme de Rua, que, além de buscar democratizar o acesso ao cinema – com uma sala de exibição gratuita e aberta ao público –, conta com um laboratório em que os corresponsáveis pelos curtas e longas-metragens realizados são adolescentes e jovens que vivem ou já viveram nas ruas da capital mineira.

Construído com o apoio do Rumos Itaú Cultural, como parte do projeto Cinema de Rua, o local foi planejado e é gerido pelo coletivo social e de criação artística Filme de Rua, que tem o espaço também como sua nova sede. A iniciativa envolve profissionais e militantes de diferentes áreas, do cinema à história, num trabalho voltado para a inclusão e a formação dessa parcela da população tantas vezes invisibilizada ou retratada apenas por terceiros. “Interessa-nos fomentar esse fazer independente do audiovisual e construir um lugar de discussão em torno da vida dos jovens, dos jovens negros, dos jovens que vivem ou que em algum momento viveram em situação de rua nos grandes centros urbanos”, comenta a psicanalista Joanna Ladeira, idealizadora do projeto.

O coletivo social e de criação artística Filme de Rua (imagem: Bruno Figueiredo)

Além de seis coordenadores, atualmente o grupo é formado por 13 meninos e meninas que atuam em todas as etapas próprias da realização de um filme, da pré à pós-produção. “Através do Filme de Rua pude conhecer a arte, mexer com câmeras, editar filmes. Você olha pra mim e é diferente, não vê mais aquele menino de antes, sabe?”, conta Hugo Graciano da Silva, jovem de 20 anos de idade que viveu a maior parte de sua vida nas ruas, dos 7 aos 19 anos, e que participa do coletivo desde o seu início.

Resultado de dois anos de encontros nas praças da cidade, o primeiro trabalho realizado pelo grupo foi Filme de Rua (2017), curta-metragem vencedor da 19a edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Belo Horizonte. Nele, são também os jovens e os adolescentes participantes os protagonistas das histórias narradas: com uma câmera na mão, eles circulam pelas ruas da capital mineira registrando suas vivências, seus sonhos e suas performances. Além do curta que dá nome ao projeto, o coletivo já finalizou outros três, todos lançados em 2018: Ver o Mar, dirigido por Hélio André Cândido e Igor Ricardo de Souza, Chuá de Maloqueiro e Maloca, ambos com direção de Hugo Graciano da Silva e P.J. (in memoriam).

Para fazer, ver e pensar filmes

Desde que o primeiro filme do coletivo começou a ser gravado, em 2015, é a primeira vez que o grupo terá um espaço próprio onde se encontrar e produzir. Com o apoio do Rumos, mais três filmes estão sendo realizados: Ficção Tipo Real, em que todos da equipe são personagens e, por meio de uma narrativa fictícia, imprimem aspectos de sua vida na história contada; Filme das Mulheres (nome provisório), de caráter documental e que, além de estar sendo produzido só por mulheres, aborda o ponto de vista delas sobre a rua e as relações humanas; e um terceiro, por ora sem título, de cunho ainda mais experimental e que irá se aproximar de um videoclipe. As gravações vêm ocorrendo desde o ano passado.

A continuação do trabalho de criação pelo grupo é apenas um dos três pilares do projeto contemplado pelo Rumos. Aberto ao público no dia 15 deste mês, o equipamento exibirá regularmente e em sessões gratuitas produções independentes, sobretudo as periféricas, locais ou nacionais, realizadas por e para jovens. A ideia é, também, fomentar um espaço de reflexão e discussão sobre as obras exibidas e a prática audiovisual na cidade. “Iremos focar filmes e temas que colaborem para a formação desses jovens e da cidade de modo geral”, comenta Joanna.

Cena de Filme de Rua (2017), que mostra parte do processo de criação da obra (imagem: Divulgação / Filme de Rua)

Ponto de criação e, sobretudo, acolhida

As origens do coletivo remetem a 2010, ano em que Joanna passou a coordenar uma roda de conversa mensal com crianças e adolescentes em situação de rua no Miguilim Cultural, programa governamental de assistência social pelo qual aconteceram os primeiros encontros com alguns dos jovens que hoje integram o grupo. Esse contato se deu por cinco anos. “Eu via que pouca coisa mudava na vida deles e, a partir daí, comecei a ter essa inquietação. Foi quando propus: ‘Vamos fazer um filme de vocês?’”, conta a psicanalista.

Quase uma década depois, o caráter social presente nas raízes do coletivo não se perdeu, conforme destaca Joanna. “Isso é praticamente tudo o que sustenta o projeto. Não nos interessa seguir com a prática audiovisual sem trazer outro tipo de apoio para que o crescimento e a formação das crianças e dos adolescentes se deem de maneira integral. A vida deles pede estrutura básica, moradia, alimentação, segurança. São pessoas que precisam ser escutadas e acolhidas”, enfatiza.

Nesse sentido, inúmeras medidas já foram tomadas para atender às demandas por apoio surgidas no grupo, com ou sem o auxílio do Rumos – desde o oferecimento de bolsas pela participação dos jovens no projeto até a realização de uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) para reinserir nos estudos aqueles que tiveram de abandonar a escola. “O Filme de Rua mudou meu caráter, mudou minha história”, conta Hélio André Cândido, de 19 anos, que, graças ao coletivo, voltou a estudar e conseguiu sair das ruas, para onde foi depois de perder a mãe. História similar ocorreu com Samuel Sousa Silva, de 18 anos, que há seis meses passou a ter um lar. “Com a bolsa que recebi arrumei um aluguel e estou até hoje morando em uma casa. Agora estou arrumando um serviço, construindo minha vida”, comenta.

Localizado no térreo do edifício SulAmérica, na região central de Belo Horizonte, o local em que se instalou o Espaço Cultural Filme de Rua foi alugado em fevereiro e, assim, se manterá com o apoio do Rumos até o fim deste ano. Mas, depois desse período, o grupo não pretende parar o trabalho que vem sendo realizado, conforme pontua Joanna: “Nós queremos construir com a cidade uma forma de manter esse espaço para além do Rumos. Que ele tenha sido esse motor para a concretização desse espaço como um espaço de referência para a prática audiovisual da cidade, mas também como um ponto de encontro, de apoio e de construção coletiva de outra maneira de pensar o espaço urbano, seus atores e seus moradores.”

Serviço

Espaço Cultural Filme de Rua
Edifício SulAmérica, térreo, loja 8
Avenida Afonso Pena, 941, Centro – Belo Horizonte, MG
Acompanhe a programação do projeto em suas redes sociais: Facebook e Instagram.

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