por Jessica Orlandi
 

“Vem, mulher, de mãos dadas vamos caminhar!

Oh, mulher, vamos juntas a história fazer!

Vem, mulher, que unidas vamos triunfar,

Novo rumo a história terá,

E a vitória vai acontecer! (bis)

Oh, mulher, tua história nunca foi contada!

Oh, mulher, poucos livros revelam teu ser!

Oh, mulher, és mais vista como um objeto.

Para dares carinho e afeto

Em um mundo de falso prazer! (bis).

Oh, mulher, tu és forte e podes vencer,

Oh, mulher, se te unires às outras e caminhar!

Mas, mulher, juntos às outras tu te sentirás:

Teu passado triste deixarás

E verás novo dia brilhar! (bis)”

[trecho da canção “Vem Mulher”, de Nazaré Flor (2002), registrada no livro Canção e Poesia, da própria autora]
 

No trecho da música “Vem Mulher”, um retrato da luta de Nazaré Flor, sua autora. Um chamado em prol das mulheres, por seus direitos, por sua voz, por seu reconhecimento perante a sociedade, pela não submissão e pela união de todas elas, em geral – e das trabalhadoras rurais do Nordeste brasileiro, em particular.

Nascida Maria Nazaré de Sousa, em janeiro de 1952, Nazaré Flor foi poeta, educadora, líder comunitária, uma das fundadoras do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE) e cantora (não profissional, seu grande sonho de vida), entre outras atividades. Era moradora da comunidade costeira de Apiques, no Assentamento Maceió [criado na década de 1980 por meio de uma desapropriação de terra feita pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)], a cerca de 190 quilômetros de Fortaleza, no município de Itapipoca, no Ceará. 

Força e perseverança definem a trajetória de Nazaré, que faleceu em 2007 (aos 55 anos de idade, vítima de um câncer) e desde cedo lutou por diversas questões – como educação, saúde, moradia e a apropriação das terras de seus tataravós junto com sua comunidade, proporcionando importantes transformações naquela região. Definem, ainda, a história por trás do documentário Terra de Nazaré, da diretora, jornalista e cientista social Shaynna Jacques Pidori, que foi selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2017-2018 e conta a história dessa importante liderança.
 

Uma ideia, quase nenhum recurso e muita vontade

Foram anos de espera desde a ideia original de Shaynna e a captação das primeiras imagens até a realização do média-metragem – ainda em fase de finalização. Tudo começou em 2005, quando a diretora e uma amiga de faculdade, a também jornalista Priscila Néri, resolveram fazer um filme. “Na época, a pretensão era criar um longa-metragem. A única certeza que tínhamos é que queríamos falar sobre mulher e sertão”, conta Shaynna. “Decidimos, então, passar seis meses em diversas regiões do Nordeste brasileiro, escolher sete mulheres, com funções diferentes em suas comunidades, e contar as histórias delas. A proposta era acompanhá-las de perto durante uma semana.”

A dupla partiu para a empreitada, iniciando a jornada em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, com pouco dinheiro no bolso (cerca de 2 reais por dia na época), mas disposta a trocar trabalhos na área audiovisual por hospedagem, comida, depoimentos e gravações de imagens dessas mulheres. “As pessoas que nos conheciam diziam que estávamos loucas em tentar fazer um documentário nessas condições”, recorda Shaynna. “Mas deu tudo certo. Fomos muito bem recebidas e acolhidas em todos os lugares por onde passamos.”

Durante “a andança” em busca de suas sertanistas, as cineastas conheceram em Olinda (PE), em meio a uma reunião do MMTR-NE, aquela que viria a ser uma das principais personagens do então longa: a própria Nazaré Flor, uma das fundadoras daquele movimento. “Nazaré veio até mim e perguntou: 'Você está procurando mulheres? Então, veio ao lugar certo!'”, relembra Shaynna. “'Não moro no sertão, estou no litoral, mas Itapipoca tem três tipos de clima: os do sertão, da zona da mata e do litoral.' E deu vários argumentos para participar. Ela contou que começou a trabalhar na roça, aprendeu a ler e a escrever sozinha, estudou só depois de casada, passou a ensinar as pessoas em sua comunidade numa época em que não havia escola na região e publicou o livro Canção e Poesia, em 2002, em parceria com o Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (Cetra) [organização da sociedade civil]”, fala a diretora. “Então, pensei: 'Não tem como deixá-la fora'. Eu me apaixonei por ela. Nazaré era cheia de luz, de brilho, uma pessoa encantadora.”

Após a seleção das mulheres e das gravações – que duraram seis meses e aconteceram em Itapipoca, Monteiro (PB), Santa Cruz da Baixa Verde (PE), Nazaré do Piauí (PI), Trindade (PE) e Cacimbas (PB) –, Shaynna e a parceira retornaram a São Paulo. “Na época, achávamos que conseguiríamos terminar o longa em até três anos. Mas não foi o que aconteceu. O tempo foi passando e a vida acabou nos levando por caminhos profissionais e pessoais diferentes”, conta. Além disso, no ano de 2007, a diretora foi surpreendida com uma desagradável notícia: Nazaré Flor havia descoberto que estava com câncer. Faleceu cerca de três meses depois.

“Tudo aconteceu rápido. Fiquei muito triste. Continuava em contato com a Nazaré (falávamos por telefone) e sentia que tinha esse compromisso pendente, por tudo o que ela possibilitou durante o tempo que passamos juntas e por não ter conseguido finalizar o filme. Era muito forte”, fala Shaynna. “Então, pensei, já que não posso terminar o longa, vou separar as mulheres que participaram das gravações em 2005 e fazer documentários independentes sobre cada uma delas. Será um novo projeto, em novo formato. E a primeira da lista foi a Nazaré Flor”, conta. “Refiz o projeto e o inscrevi no Rumos. O Cetra, que tinha interesse numa homenagem póstuma a Nazaré Flor, ajudou na reconexão com a comunidade e com a família dela.”


O novo projeto do documentário e o retorno a Itapipoca, terra de Nazaré

“Nazaré Flor, com sua luta e seu trabalho de anos na comunidade, deixou um legado. Um grupo de mulheres se fortaleceu naquela região quando ela faleceu. Passaram a valorizar ainda mais o que ela havia feito. E isso encaixava bem na minha ideia de fazer o novo documentário sobre ela”, fala Shaynna. “Seria importante, então, voltar à região e dialogar com aquelas mulheres, escrevendo, juntas, uma proposta de roteiro para esse média-metragem.”

A diretora acrescenta que o retorno a Itapipoca e à comunidade onde Nazaré Flor vivia, 13 anos depois da primeira visita, foi muito emocionante. “Ver o desenvolvimento e o avanço que aconteceram ali nesses anos todos foi interessante”, diz. “O lugar é muito bonito, é uma zona de dunas. Mas agora a população tem mais acesso, meios de locomoção, internet. Conquistou o direito de ter uma escola (que leva o nome de Nazaré Flor: Escola de Ensino Médio Maria Nazaré de Sousa). Você nota que a luta da Nazaré pela educação, pela terra, pelos direitos das trabalhadoras rurais (que não se aposentavam porque não tinham documentos), pela superação da opressão na luta pelo assentamento de terras deu resultados. Foi um trabalho de formiguinha o que ela fez.”

Durante a passagem por Itapipoca, em novembro de 2018, Shaynna e sua equipe ministraram três dias de oficinas para as mulheres da comunidade. “Apresentamos o projeto do documentário no primeiro dia e elas decidiram quem ficaria para participar dos demais”, conta. “A ideia era misturar imagens de arquivo de Nazaré – capturadas em 2005 – com essas novas, que gravaríamos com elas. Para tanto, pedimos que reproduzissem cenas falando do cotidiano da Nazaré. Após uma dinâmica na qual as participantes levaram objetos que a simbolizavam ou a recordavam, gravamos os relatos.”

Segundo Shaynna, espontaneamente foram surgindo frases de impacto, casos surpreendentes, pontos que ela gostaria de abordar – e que estão presentes – em Terra de Nazaré. Cada uma das participantes relatou uma situação e relacionou vivências, histórias, olhares diversos sobre Nazaré. Foi o caso de Lucivane Ferreira, 35 anos, moradora da comunidade de Apiques desde que nasceu, trabalhadora rural e integrante do MMTR-NE, movimento ao qual aderiu a convite da própria Nazaré, em 2007. Ela conta que participar das oficinas e das gravações foi uma experiência especial e emocionante. Lucivane levou o livro do movimento para rememorar Nazaré Flor.

“Eu admirava a luta dela, embora alguns não a reconhecessem. Vimos a importância de Nazaré na comunidade, no assentamento e no movimento, principalmente, depois que ela se foi”, conta Lucivane. “Antes de ela entrar no movimento, já trazia essa trajetória de vida e de luta. Sempre estava à frente de reuniões, celebrações, planejamentos de ações. No movimento, ela se destacou pela luta em prol das mulheres”, diz. “Se não fosse esse movimento, onde estaríamos? Provavelmente, eu não teria a oportunidade de contar a minha história como mulher. Certamente, estaria somente no espaço privado, dentro de casa, sem poder adentrar outros locais. Ou seja, ele é transformador. Mostrou que nós, mulheres, podemos ir em busca de muitas coisas.”

Terra de Nazaré, que está na reta final de edição e deve ser concluído ainda no primeiro semestre de 2019, terá sua exibição de estreia em Itapipoca, para a comunidade de Apiques. Segundo Shaynna, além do documentário, ela pretende deixar arquivos em audiovisual do material que porventura não entrar no média-metragem, como acervo para a biblioteca da escola. Para a diretora, essa é uma das formas de tentar retribuir a todos por tudo aquilo que recebeu das mulheres da terra de Nazaré.

 

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