por Duanne Ribeiro

Pensar o progresso da leitura no Brasil demanda compreender os perfis dos leitores brasileiros, suas formas de aproximação e distanciamento da literatura, as comunidades que são criadas em torno dos livros. Um meio de entendermos melhor esse cenário são as pesquisas lançadas na semana passada pelo Itaú Cultural, pelo Instituto Pró-Livro e pelo Ibope Inteligência, versões focadas da Retratos da Leitura no Brasil, que desde 2001 mapeia o leitorado nacional. Esses levantamentos “filhotes” foram aplicados na Bienal do Livro do Rio de Janeiro e na Festa Literária das Periferias (Flup).

Nesta matéria, expomos um apanhado das pesquisas e, após, os envolvidos nos levantamentos – Zoara Failla, coordenadora da Retratos da Leitura no Brasil; Rosi Rosendo, do Ibope Inteligência; Marcos Pereira, presidente da Bienal; e Daniele Bernardino, diretora da Flup – apontam caminhos para obtermos um país mais leitor. Os dados da pesquisa e a reportagem indicam meios de ponderar sobre as políticas públicas de leitura, o comércio de livros, a condição de formação dos leitores e as comunidades que são construídas em torno das obras do pensamento e da cultura.

Confira detalhes dos dados na apresentação completa.

Dois perfis do leitor brasileiro

A Retratos da Leitura no Brasil aplicada na Flup e na Bienal mostra como os eventos literários agregam comunidades particulares, diferentes entre si e mais ou menos distantes da média nacional.

Tanto a Flup quanto a Bienal, por exemplo, têm uma porcentagem maior de participantes entre 18 a 24 anos do que o apontado no Brasil pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2017 – são 31% e 30% contra 13%. Esse público mais jovem tem também maior escolaridade: a faixa de ensino superior marca 76% na Flup, 61% na Bienal e 17% no Pnad.

No quesito classe, o cenário muda um pouco: a Bienal tem mais visitantes da classe B (56%) e a Flup da classe C (61%) – um perfil mais próximo da população brasileira assim como figurada na Retratos (22% para classe B e 48% para classe C). A Flup também se destaca pela maior presença de visitantes negros: 46% frente à faixa definida pelo Pnad em 9% (o item raça foi acrescentado em um segundo momento à ficha de pesquisa, por isso não há esse dado quanto à Bienal.)

Ambos os eventos são frequentados majoritariamente por leitores: 95% na Flup e 97% na Bienal contra 53% em nível nacional, segundo a Retratos (define-se “leitor” quem leu pelo menos um livro, inteiro ou em parte, nos últimos três meses). Leem mais livros em média – 7,9 e 6,6 frente a 2,5, e leem mais por interesse pessoal – 68% e 69%, em contraste com 47%. Além disso, compram mais: 62% e 72% frente a 44% no âmbito nacional, em que pesam bastante os empréstimos.

O que leem os leitores brasileiros

Outros indicadores interessantes dos levantamentos são referentes aos relacionamentos com a leitura – o que aproxima e o que afasta dos livros e do costume de ler.

A descoberta de autores e de obras parece ser mediada pelas relações pessoais. Perguntados sobre a indicação do livro que estão lendo ou do último que leram, os entrevistados apontam: amigos (25% na Flup e 20% na Bienal); professores (19% e 14%) e família (8% em ambos). A mídia tradicional – jornais, revistas, televisão – marca 8% na Flup e 7% na Bienal; quanto às redes sociais – Youtube, Instagram ou Facebook –, têm peso maior na Bienal: 13% contra 5% na Flup.

Nesses eventos, a literatura é preponderante (44% na Bienal e 41% na Flup), sendo que os gêneros mais lidos, na ordem, são romance, conto, poesia e juvenil. Destaca-se na Flup a leitura de obras de história, economia, política, filosofia ou ciências sociais (17%), enquanto na Bienal correspondem a 7%. Tais marcas se distinguem bastante do quadro nacional da Retratos, que indica a Bíblia como gênero mais lido (43%), seguida por romance (23%), obras religiosas (23%) e contos (21%).

Entre os autores mais citados na Bienal, a fantasia é bastante referida: J.K. Rowling, George R.R. Martin, C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien ganharam menções, assim como outros que se enquadram na ficção especulativa, como Stephen King, George Orwell e Dan Brown. Best-sellers como Augusto Cury e Anne Frank e obras religiosas como as de Allan Kardec e Zíbia Gasparetto também aparecem.

Na Flup, são mais presentes referências da reflexão das questões de raça – Angela Davis, Frantz Fanon, Grada Kilomba, bell hooks, Djamila Ribeiro – e escritores negros, como Ana Maria Gonçalves, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Maya Angelou, Octavia Butler e Chimamanda Ngozi Adichie. Ademais, Anne Frank, Augusto Cury e Zíbia Gasparetto seguem sendo mencionados.

Propostas para a formação de leitores

A Retratos da Leitura no Brasil indicava que os motivos para não ler eram: falta de tempo (35%), não gostar de ler (30%) e não ter paciência ou ter dificuldade para ler (21%). Na Bienal e na Flup, a razão mais mencionada também é o tempo. O cenário de incentivo à leitura parece marcado pela competição entre os livros e as outras mídias; pela formação, que aproxima ou distancia a literatura dos sujeitos; e pelas condições de acesso à literatura. É tendo em vista esse contexto que os entrevistados comentam a seguir como o Brasil pode se tornar um país mais leitor.

Zoara Failla

“Você tem que olhar para a escola. A Retratos diz: o principal influenciador é a mãe. Qual mãe? É a mãe leitora, é a mãe que tem nível superior, é a mãe que tem livro em casa. E aqueles que não têm a sorte de nascer numa família leitora?

A escola tem um papel fundamental para mais de 70% das crianças brasileiras que não têm a oportunidade de estar dentro de uma família ou de uma casa leitora. Olhando para a escola, onde é que você tem que investir? Que política tem que contemplar uma escola que forma leitores?

Primeiramente, [tem de contemplar] o professor, que também não é leitor. A Retratos avaliou o perfil leitor do professor e ele é muito parecido com o perfil leitor do brasileiro. Ele lê poucos livros, lê livros de autoajuda. Precisamos ter políticas de formação de professores, garantir que esse professor seja leitor; garantir uma biblioteca com acervo e com profissional habilitado, que desenvolva atividades integradas e orientadas pelo currículo escolar.

[A Retratos mostra que] 61% das escolas brasileiras não têm uma biblioteca e que 48% dos alunos na faixa de 10 a 14 anos dependem dos livros da biblioteca escolar. Como é que formamos leitores? Com um professor leitor, com livros, com possibilidade de acesso a livros dentro da escola, com bibliotecas funcionando adequadamente. Esses pilares são fundamentais para garantir que você consiga, de fato, melhorar esses indicadores de leitores.”

Rosi Rosendo

“A condição de leitor está muito associada ao background dos indivíduos. De que família vieram, o tipo de escolaridade formal que tiveram, se foram de fato incentivados ou se tinham de ler por exigências da escola. Como foi o processo de formação desse leitor? O que desencadeia isso de agora metade da população não ser leitora?

A Retratos traz um conjunto de informações que é bem aprofundado em relação aos gaps que temos como resultado do contexto geral de escolaridade da população brasileira. Vemos ali, de fato, o que resulta de uma educação que não enfoca a ação do cidadão – que vai ser muito mais instrumental, muito mais quantitativa, no sentido de colocar muita gente dentro da escola e não necessariamente garantir uma boa qualidade do ensino. E isso se reflete não só nos resultados da Retratos, mas também no Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf).

Uma proporção relevante da população, que frequentou a escola por um período razoável, digamos, oito anos, é analfabeta funcional ou não é proficiente em letramento e numeramento.

Não sou especialista no tema, então nem conseguiria pensar em medidas. [Nesse campo, é uma questão de] políticas públicas, mas também da iniciativa de coletivos. A Flup está aí para provar que os impactos podem ser, sim, muito significativos. A grande maioria dos frequentadores da Flup são leitores, o que é resultado da formação desse público.

Essa é uma responsabilidade de todo mundo."

Marcos Pereira

Sobre o comércio de livros

"Essa indústria é uma indústria que precisa se autoalimentar. O cenário para o varejo em geral está mudando muito, e não só para o varejo de livros. Nesse caso específico, o modelo que estabelecemos nos anos 1990 foi o da livraria com o maior acervo possível. Isso carrega muito, porque você tem livros que estarão lá dentro das livrarias e que vão vender uma vez por ano, eventualmente, se você quer ser uma livraria de tudo.

A internet trouxe uma facilidade muito grande, porque agora você pode ser uma livraria de tudo, mas pode estar concentrada num centro de distribuição. Então, as livrarias modernas precisam se modificar, precisam oferecer serviços, curadoria e eventos, ter pessoas qualificadas.

E essa é uma mudança difícil, você tem que ser muito ágil como empresário para implementá-la, pois significa reduzir a sua loja, reeducar o seu time, refazer o seu plano de abastecimento.”

Sobre a formação de público

“Todas as nossas pesquisas indicam o leitor brasileiro como sendo muito mais a mulher que o homem. Esse leitor é jovem, o que é uma coisa boa e um fato importante. Todas as pesquisas indicam o jovem como sendo muito aberto à leitura. Sabemos que o jovem tem uma competição brutal pelo tempo. Todos nós temos, mas no caso do jovem isso é talvez o principal.

O desafio mundial da leitura hoje é atrair esse jovem para a importância do conhecimento, das histórias, para o fato de que a leitura, como crescimento pessoal, é um exercício muito maior que simplesmente ficar vendo determinada coisa – porque ler exige de você uma capacidade de compreensão, de concentração e de digestão que lhe permite depois produzir muito mais.

Você precisa ter bons autores escrevendo, boas histórias para que as pessoas leiam e comentem com os amigos. Ontem eu estava num evento do Yuval Harari [autor de Sapiens – uma Breve História da Humanidade]. Sapiens é o tipo de livro que você consegue parar numa mesa com os amigos e ficar conversando sobre, o que era uma coisa muito comum há dez ou 15 anos atrás. Hoje em dia, é muito mais fácil sentarmos numa mesa e ficar conversando sobre uma série nova. O que precisamos fazer, eventualmente, é estimular clubes de leitura. Acho que a indústria tem que ser mais criativa nesse sentido. Estamos numa situação difícil, porque passamos anos sofridos, mas precisamos construir um futuro mais criativo para ser melhor.

[Estimular] o encantamento de você viajar num livro: acho que esse é o grande desafio.”

Daniele Bernardino

“Vou falar do que a Flup vem desenhando até o momento.

O que estamos fomentando é o entendimento de que todos nós podemos. Durante muito tempo, até pela questão financeira, o livro era inatingível para quem estava dentro da favela. Quando mostramos que você pode ter acesso, que inclusive pode ser protagonista e autor dessas histórias que são consumidas, isso potencializa e estimula o surgimento de cada vez mais leitores.

Produzimos o evento muito nessa perspectiva de dar voz à população da periferia, que está produzindo e consumindo literatura. Não temos grandes esforços na busca do público. Ele é gerado quase que espontaneamente, porque anseia pelo encontro com esses autores.

Percebemos que as pessoas buscam esses espaços de conversa, de construção, de geração de perspectivas. Ampliamos o diálogo, o que cria uma empatia e identidade maior com esse público politizado, que busca discussão. E sem perder de vista [isso de ser como] uma nave gigantesca que pousa dentro da favela e atrai olhares até mesmo curiosos. Quem muitas vezes nem tem o interesse da leitura acaba vindo, porque, como é uma festa, vai ter também outros componentes que não só o debate e as oficinas: tem shows, saraus, que atraem esse público diversificado.

Outro exemplo são as batalhas de slam [competições de poesia falada]. Quando levamos o slam para dentro da escola, o jovem percebe a importância da produção textual, da leitura, com outra perspectiva, numa linguagem mais viva, que é o que a juventude traz.

E é essa a aposta que fazemos todos os anos, para que as pessoas se sintam convidadas à leitura, para que o evento funcione também como um chamariz para esse novo leitor. [É preciso] abrir portas variadas, que sejam empáticas, nas quais as pessoas se vejam.”

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