por Milena Buarque Lopes Bandeira

Em uma “Carta aos Cariocas”, publicada como coluna no Jornal do Commercio em fevereiro de 1963, o jornalista Vladimir Herzog traça um comparativo entre os cinemas produzidos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Diz-se encantado, “embriagado”, com a cena carioca. Com certa “tristeza de paulista”, Vlado é categórico: técnicos e montanhas de dinheiro não substituem a coragem e a audácia.

Criterioso e imbuído de um espírito crítico aguçado, o jornalista se dedicou de forma constante ao cinema, tanto em sua vida profissional quanto em momentos de lazer. Tinha no audiovisual uma grande paixão.

Confira a seguir o que Vlado achou de alguns filmes a que assistiu. As opiniões foram retiradas de críticas e matérias e de cartas enviadas a amigos, com quem costumava trocar frequentemente suas visões sobre o mundo.

Todos os textos de Vladimir Herzog transcritos nesta página respeitam a grafia original de seu autor.

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Tire Dié, de Fernando Birri

Pela primeira vez uma obra de arte cinematografica pro­duzida na América do Sul era sul-americana. Pela primeira vez, e num filme, o homem deste continente, isto é, o homem-maioria, o “lado de lá” desses milhões de individuos cujos direitos a uma vida digna foram retira­dos desde os tempos de Cortez, tinha lugar numa película.

“Tire Die” é, antes de mais nada, o que se poderia chamar de um filme voltado de dentro para fora. Se fôr verdadeira a afirmação de Cavalcanti de que “deve ser inculcada nos neófitos a consciencia do papel do cinema, da sua responsabilidade para com o público”, o filme de Birri é, a nosso ver, o seu mais perfeito exemplo e o único. Em tudo e por tudo “Tire Die” é, ele sim, um filme insolito.

(Em “Birri de Santa Fé”, texto publicado em O Estado de S. Paulo, 5 de abril de 1962)


Jules et Jim, de François Truffaut

Confessamos, antes de mais nada, que “Jules et Jim” nos desconcertou. Não sabemos até que ponto este filme de François Truffaut não nos foi assimilavel em sua totalidade por deficiencias proprias ou por incapacidade nossa. De qualquer modo, é um dos filmes mais importantes, senão o mais significativo da obra do autor de “Les 400 coups”. [...] Não duvidamos que “Jules et Jim” seja um hino ao amor. Amor entendido como uma relação digna, despojada de toda a legenda de pieguice, romanticismo e falsa sentimentalidade que o situou na esfera egocentrico-exclusivista das existencias. Jules (Oscar Verner) e Jim (Henri Serri) são capazes de amar Catherine (Jeane Moreau) com a mesma nobreza em que é mantida a amizade de um ser humano para outro que ambos se dedicam.

(Em “A última fita de François Truffaut”, texto publicado em O Estado de S. Paulo, 8 de abril de 1962)


I Giorni Contati, de Elio Petri

O filme ocupa-se com uma tematica que de certa maneira se vincula ao humanismo dos realizadores neo-realistas, mais precisamente daquela fase de reexame critico do inicio da década de 50, com “Umberto D”, “Roma, Ore 11” e tantas outras que, abandonando, parcialmente os caminhos veristicos iniciais, derivaram para um realismo cujo sentido poetico jamais se desvinculou de um compromisso social.

(Em “Termina o Festival de Mar del Plata; vence fita italiana”, texto publicado em O Estado de S. Paulo, 3 de abril de 1962)
 

Yanco, Servando González

“Yanco” foi a fita mais aplaudida do festival [Mar del Plata] e confessamos termo-nos apaixonado por alguns aspectos da vida asteca mostrados na fita com um primitivismo algo procurado. O filme quase não tem dialogos e conta a hitoria de um menino e de seu violino, em meio aos costumes dos camponeses de descendencia marcadamente indigena. O calor que poderia ter emanado deste primitivismo foi prejudicado por uma fotografia excessivamente preciosa de Alex Phillips e pela concepção adjetivante.

(Em “Termina o Festival de Mar del Plata; vence fita italiana”, texto publicado em O Estado de S. Paulo, 3 de abril de 1962)


Viramundo, de Geraldo Sarno

[...] é "Viramundo" não só pela natureza do problema que aborda, mas também pelo método utilizado em sua realização (pesquisas prévias exaustivas, seleção valorativa dos dados colocados em função de uma demonstração dialética) fato sem precedentes na história do documentário social brasileiro. Pode ser (e acredito que assim seja) que o resultado final não correspondeu às expectativas, que o filme acabou resultando não muito claro (principalmente para as plateias estrangeiras) mas quando se tem em mente que êste tipo de cinema (ou de arte) é um cinema participante de um processo de transformação social percebe-se que mesmo as falhas (inevitáveis) tornam-se virtudes desde que, naturalmente, o autor ou autores tenham consciencia do caráter "científico" do seu instrumento de expressão e não queiram fazer obras "belas "ou "acabadas" em si mesmas. É o caso de Geraldo Sarno (diretor de "Viramundo). Daí que eu confio nele, e em sua fita, fita que abre caminhos, provoca raciocínio e discussão. Enfim, é fértil, porque contribue para o conhecimento objetivo de uma realidade ou um elemento dela.

(Trecho de carta enviada ao amigo Tamás Szmrecsányi, 7 de janeiro de 1966)


The War Game, de Peter Watkins

Consegui finalmente marcar em encontro e bater um papo com Peter Watkins, o genial diretor do genialérrimo “The War Game”. Creio já ter falado abundantemente sobre esta fita em cartas anteriores. É um documentário-ficção sobre como seria um ataque atômico contra a Inglaterra, partindo de premissas baseadas na conjuntura internacional atual. Se quiserem saber mais detalhes, perguntem ao Cacá Diegues, que esteve aqui há dias e também ficou embasbacado com o filme. Bem, como disse, bati um proveitoso papo com Watkins, rapaz de 30 anos, sujeito seríssimo que trabalha com métodos muito semelhantes aos nossos e com preocupações idem, embora evidentemente dentro do contexto da realidade inglesa. Sôbre essa realidade Watkins tem posições lucidíssimas, madurissimas e eu não hesitaria de chama-lo, em certo sentido (para que compreendam o que quero dizer) de o “Francesco Rosi britânico".

(Trecho de carta enviada ao amigo Sergio Muniz, 10 de novembro de 1966)

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