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Há muitas maneiras de registrar a existência e as características dos objetos e materiais. Aqui no Brasil, quando uma criança nasce, uma das primeiras coisas que se faz para simbolizar sua chegada ao mundo e garantir sua saúde é a realização de um exame médico que consiste em produzir uma estampa do seu corpo: passa-se tinta no pé do recém-nascido e, então, pressiona-se este pé com tinta sobre um papel. Esse é um dos primeiros documentos da prova da nossa existência, é uma marca de que este corpo ocupa um espaço e tem características singulares.

Mais tarde, essa criança ou jovem vai precisar, para o exercício de seus direitos e deveres como cidadão, criar outro documento que o identifique: o RG, registro geral. E então, de novo, para isso, ele deixa uma marca personalizada de si: desta vez de um dedo só, a chamada impressão digital.

Nos dois casos, o corpo humano é o que se chama de “matriz”. Na gravura, a matriz é a superfície que contém a informação que se quer reproduzir. No pezinho-matriz, a cada nova entintagem é possível extrair uma nova impressão, resultado da pressão sobre o papel. Esse é o mecanismo de feitura dos carimbos, da xilogravura, da gravura em metal e de tantas outras técnicas cujo funcionamento se dá a partir do princípio de que podemos ter muitas cópias, muitas impressões, de um objeto.

Há múltiplos processos possíveis para fazer gravuras, alguns bastante tradicionais, já que as técnicas foram sendo desenvolvidas ao longo do tempo para servir a muitas necessidades humanas: transmitir notícias, ideias, credos religiosos, descobertas científicas, arte… Mas nos interessa pensar também que, além das técnicas tradicionais, há um sem-fim de experimentações que podemos fazer com a ideia de gravura e mais especificamente a de matriz – que é o centro da proposta deste episódio: olhar para os objetos à procura das formas e, a partir da própria existência material deles, do seu corpo, criar marcas, as estampas.

 

A gravura é celebrada por muitos por seu potencial democrático: poderia levar informações a pessoas com dificuldade de acesso e a um número grande de cidadãos, já que seu princípio de multiplicação a difere, por exemplo, de uma obra arquitetônica. A gravura, ao produzir cópias de si, permite que essas cópias viagem e encontrem muitos leitores, e leitores que podem estar distantes de onde ela foi produzida. 

Não à toa, em algum momento, a humanidade decidiu fazer os livros usando técnicas de gravura. Hoje existem técnicas digitais e industriais, mas tudo começou manualmente, usando madeira ou pequenas peças de metal com as letras, os chamados “tipos”. O fato de o livro ser multiplicado é, entre outras coisas, o que deu chance de ele se tornar esse item especial que nos traz conhecimento e fantasia: fazer muitos livros possibilita que muitas pessoas tenham acesso à mesma mensagem. Quando traduzidos, eles atravessam fronteiras. Há, ainda, a viagem que as histórias podem produzir na imaginação de quem lê. Um livro é também uma ótima companhia para uma aventura.

Na Coleção Brasiliana, encontramos diversos livros de diferentes momentos da história, com diferentes características físicas, assuntos e utilidades. Muitos deles são casa para vários tipos de gravura. Mas as gravuras, além de morar nas páginas costuradas dos livros, formam álbuns de folhas soltas ou impressões individuais; estão ainda nos jornais e periódicos e até mesmo nos textos nas paredes de espaços expositivos. Se a gente olha de perto, vê que a gravura está no fôlder, no catálogo, no bilhete do metrô que usamos para nos transportar, no teclado que uso para digitar este texto e em mais tantos lugares que a gente gastaria a vida descrevendo.

Vamos perceber a presença das estampas no cotidiano? Abaixo, deixamos algumas referências para inspiração:

Estampa;
Gravura;
Calcografia;
Madeira de fio;
Rotogravura;
Pequena Bíblia de Raimundo;
Revista Klaxon;
Revista de Antropofagia;
Angelo Agostini;
Brasiliana Iconográfica.

Expedição Brasiliana: crie estampas em casa (imagem: Divulgação)
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