Qual é a história da sua maior saudade?

Quando eu era criança, no Cariri, brincar na rua era coisa de todo dia. Era especialmente feliz quando chovia e a gente saía para escorregar nos montes de terra que ficavam em frente a casas em construção. A rua virava uma correnteza, o chão de pedras irregulares entrava em furdunço. No outro dia, era até meio difícil caminhar em cima das pontas viradas. Brinquedo era qualquer coisa, desde lata de leite em pó até bola feita com sacola dentro de sacola dentro de sacola. Muitas vezes a gente trocava os brinquedos comprados por brinquedos que a gente inventava com cipós, barro, cal. Menino e menina, todo mundo batia figurinha do Dragon Ball no bafo, jogava bila, carrapeta. Naqueles anos eu experimentei uma inteireza do que é fazer parte de um grupo em que todo mundo se vê igual. Em nenhum outro tempo da vida encontrei um pertencimento desse tipo. Acho que minha maior saudade é desse sentimento direto, sempre tão fácil de viver no presente, dessa percepção da junteza que ia do toró caindo ao terreno baldio que enchia as canelas de carrapicho. A história da minha maior saudade é toda papocada de memórias, é contada pela menina de 8 a 10 anos que fui no sertão do Ceará.

O que você mais quer agora?

Quero uma embolada de coisas. Quero passar a fase difícil do jogo de video game. Quero morar no mato com pelo menos cinco cachorros e um monte de fruta que eu mesma plantei. Quero não sentir os fatos ocos dentro da barriga sempre que invento de ler as notícias. Quero conhecer a Lady Gaga pessoalmente. Assistir de novo a um musical. Encontrar as amigas. Quero que minha gata pare de derrubar as caixinhas dos jogos da estante. Quero escrever um romance que preste. 

Como você imagina o amanhã?

Faço o exercício de não pensar muito no futuro. Viver com a cabeça esticada para o amanhã pode causar uma dor danada. Um otimismo que pode se frustrar, uma preocupação angustiada que não se aquieta, uma roda moendo o juízo que está pendurado no pescoço tenso. Prefiro moer meu juízo com o presente. No momento tenho evitado qualquer imaginação do amanhã, até uma espiadinha pode dar um susto de virar pinote. E, apesar disso, ele vem aí.

Quem é Jarid Arraes?

Sou escritora. Nasci em 12 de fevereiro de 1991 no sertão do Ceará, em Juazeiro do Norte, região do Cariri. O meu livro mais recente, Redemoinho em Dia Quente (Alfaguara), foi premiado com o APCA de Literatura de Melhor Livro de Contos de 2019. Escrevo cordel, poesia, prosa. Estou escrevendo meu primeiro romance. E, já que percebo a experiência de escrever como coletiva, criei o Clube da Escrita para Mulheres, que tem encontros gratuitos na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Um dia os encontros presenciais voltam, acreditamos todas. Também faço mentoria de escrita para autoras iniciantes, além de curadoria e edição de obras escritas por mulheres. Comecei independente, me autopublicando e vendendo livros pelas redes sociais. Continuo montando meus cordéis, um por um, à mão.

A escritora Jarid Arraes (imagem: Divulgação)

Um Certo Alguém 
Em Um Certo Alguém, coluna mantida pela redação do Itaú Cultural (IC), artistas e agentes de diferentes áreas de expressão são convidados a compartilhar pensamentos e desejos sobre tempos passados, presentes e futuros.

Os textos dos entrevistados são autorais e não refletem as opiniões institucionais.

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