por Duanne Ribeiro

A atriz e diretora Barbara Paz conversou com o Itaú Cultural sobre o contexto atual do cinema brasileiro: suas potencialidades e seus desafios infraestruturais – desde o impacto do streaming, que diminui o apelo das salas, até o papel de políticas públicas na formação de plateias. Na entrevista ela também comentou a produção de Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, documentário feito por ela em homenagem a Héctor Babenco (1946-2016), com quem era casada desde 2010. Seu “poema para ele”, o filme recebeu o Leão de Ouro de Melhor Documentário no Festival de Veneza.

Enquanto circula com Babenco, Barbara segue com seus projetos criativos. Planeja uma ficção com o tema solidão, da qual não falou mais porque está em fase bem inicial. Além disso, deve dirigir um filme sobre sua vida, sendo produzido por Julia Barreto.

A artista havia sido convidada para uma das mesas do III Fórum Mostra, programação paralela à 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, porém por um imprevisto não pôde participar. A entrevista parte da problemática que ela trataria no evento – de onde vem a força do nosso cinema? – e foi editada por concisão e clareza.

Por que o cinema brasileiro é tão forte?
Não estou generalizando, mas o que me interessa e que interessa ao mundo é o cinema autoral. O cinema brasileiro é autoral, de raiz, um cinema cru. Por isso ele é forte. Sempre foi de resistência e sempre foi muito difícil fazer cinema no Brasil. Nada muda, mas ninguém desiste. Há fases com muito dinheiro, outras com pouco ou nenhum.

Uma reação comum a essa pergunta pode ser pensar de imediato que não é forte, depende, por exemplo, da política. Na época do presidente Fernando Collor, o fim da Embrafilme gerou grande impacto na área. O cinema brasileiro é frágil nesse sentido?
Claro que depende da política, de leis que modificam e acabam com esses órgãos – Embrafilme, [Agência Nacional do Cinema] Ancine –, mas também independe. A política não modifica o cinema de raiz, autoral, não altera a essência do cinema brasileiro.

Parece que a cultura está sendo mal vista no Brasil. Isso é um atraso para nós, de muitos anos de conquista. Hoje em dia o audiovisual brasileiro tem uma ascensão enorme. É o segundo ou terceiro maior do mundo. Daí dá essa travada. Vem uma política que interrompe o ciclo que era maravilhoso. Se acabarem com a Ancine, teremos um atraso de quantos anos?

O cinema caminha com a política. Somos o sistema, e o sistema nos faz mudar tudo do dia para a noite. Muitas grandes produções vão parar, porém não vai parar tudo.

Também se fala que o cinema brasileiro não consegue criar público, criar um mercado para si, ficando dependente do apoio do Estado. Como você vê isso?
Não é que não conseguimos criar um público. Vejo pelos filmes do Hector [Babenco], quantos espectadores ele fazia? Carandiru, 5 milhões; Lúcio Flávio, 5 milhões, em uma época dificílima – foi uma retomada do cinema brasileiro.

Quando o filme é bom, forma-se, sim, um público. Veja, por exemplo, Bacurau. Só que o público caiu muito nas salas de cinema por causa do streaming. Modificou a plataforma.

É muito mais fácil ver de casa: não precisa gastar com condução, combustível, pipoca etc. Qual porcentagem do povo brasileiro pode frequentar cinema habitualmente? Muito pequena. No Brasil, é muito caro ir ao cinema, e há muitas cidades que nem têm salas de exibição. Acho que há uma questão política de como levar o povo brasileiro ao cinema.

Como uma pessoa que ganha salário mínimo vai ao cinema? Quanto custa o ingresso? Temos de olhar por outro ponto de vista – não o de “nós não formamos público”. Se a política não ajuda, como formar público para ir ao cinema?

Em minha cidade, Campo Bom, no interior do Rio Grande do Sul, com 60 mil habitantes, só havia um cinema. Eu fui quando era criança, depois fechou. Hoje, abriram duas salas, uma com meu nome. Atualmente, tem público. É assim que tem de agir, a Prefeitura se juntar e fazer.

O cinema nunca vai ficar vazio, como o teatro também não – são entidades. O ritual de ver em tela grande nunca vai acabar.

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Você acabou de lançar Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou. Como ele se encaixa no cenário do cinema brasileiro hoje? Foi difícil fazer? Por onde circular?
Como sabemos, documentários têm um circuito bem restrito, principalmente no Brasil. Nas salas de cinema, ficam por tempo limitado, e poucos canais de televisão exibem.

Foi muito difícil fazer esse filme, primeiro porque é o meu primeiro longa-metragem. Inscrevi dentro das leis da Ancine e no Fundo Setorial de Audiovisual. Era um baixo orçamento, mas considerado não tão pequeno para a categoria de documentário.

Consegui recursos com poucas instituições, [a liberação] demora. Como eu precisava terminar logo, por motivos muito pessoais, adiantei metade do valor com recursos próprios. Tenho um trabalho paralelo que me permitiu fazer isso. A outra parte foi feita com incentivos do Itaú Cultural, da Globo Filmes, do Fundo Setorial do Audiovisual e do Canal Brasil. A Spcine se ofereceu para a distribuição. Eu sou aquele pedacinho de sorte que conseguiu ser contemplada.

Pode-se fazer um documentário com poucos recursos ou com padrões mais altos, como o que eu quis fazer. Isso [produzir o filme dessa forma] tem um custo muito alto, porque eu comprei músicas e muitas imagens de arquivo do mundo inteiro, que custam muito caro.

Gastei muito mais do que me permitia, mas era uma leitura da minha vida que eu precisava fazer – o meu poema para ele. Era uma missão, não conseguiria viver sem fazer.

Agora, eu vejo como é a burocracia no Brasil – tem umas normas muito difíceis que batem de frente, para que tudo isso? Sou marinheira de primeira viagem, mas aprendi muito ao produzir. Podem me perguntar o que for. Entendi como funciona no Brasil, na Argentina. O cinema brasileiro é uma indústria, gigante, as pessoas ganham bem, cobram bem, têm seu valor. E o sistema funciona. Agora está um pouco bagunçado, pois ninguém sabe o que vai acontecer.

Nas suas experiências anteriores, não tinha essa perspectiva?
Grande perspectiva, não. Eu fiz alguns curtas-metragens.

E como atriz?
Não. Como atriz a gente não se envolve na produção, não se tem a noção do todo. Como atriz, você é uma peça, recebe seu salário.

Sempre fui observadora, mas atuando não se tem a dimensão de como é fazer um filme. A dimensão de tudo que você precisa e por que demora tanto e todas as causas para tal.

Tenho feito tudo direitinho dentro da lei, tudo que precisa. E produzi esse filme praticamente sozinha. Entendi a raiva de muitos produtores – o Hector tinha muito essa bronca –, briguei com muita gente também, pois para conseguir a excelência e não errar tem de bater pelo que é melhor, o que é bom, o que é o certo, o que é justo. Às vezes, isso custa uma briga, uma discordância, pois nem todo mundo pensa igual.

Daqui para a frente, você pretende fazer outros filmes? O que você tem em mente?
Estou começando a esboçar minha ficção, que eu já tinha há muito tempo escrito um pouco o argumento. Agora falei: pode acreditar em você, pode seguir.

Não sei como vou fazer esse filme ainda, se dentro dos padrões da lei ou de operação guerra –essa ação paralela, fora do sistema. Mais complicado, mais difícil, mas ainda tem gente, muita gente, que quer fazer cinema, ser parceiro – estou falando de atores, de pessoas, de equipes que estão a fim de se juntar. Por que continuar nesse sistema de você não saber o que vai acontecer, né? Você inscreve um projeto, vai demorar quanto tempo para ser aprovado? Vai sair o dinheiro? Pelo jeito, hoje, cada um está produzindo o seu – como cinema autoral. Vou continuar a fazer cinema, sim, mas não sei como.

O que o cinema brasileiro tem de fazer para continuar sendo forte?
Acho que não desistir, né? É resistir.

E parar de discutir também, parar de culpar o outro, parar de ver os defeitos e, sim, tentar uma conversa, uma junção, um acordo, um entendimento. Tem de ter entendimento com esse que atira, buscar um consenso, temos de chegar junto de quem atira e dizer o porquê de não atirar, de parar de atirar. Pedir para que esse atirador nos escute.

Temos de respeitar e tentar um entendimento, porque isso é a semente do amanhã. Acredito que não adianta apontar culpados quando se trata de política, de partido, isso só atrasa. Não é uma questão política de direita ou de esquerda, a questão é que um país sem cultura é um país sem alma. O que é um povo sem cultura? Ele se torna vazio.

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