por Marina Lahr

"Porque este samba, sinhô, sinhô

De arrepiar, sinhô, sinhô

Põe perna bamba, sinhô, sinhô

Mas faz gozar, sinhô, sinhô"

Os apaixonados pelo mais brasileiro dos ritmos certamente não possuem muita dificuldade em reconhecer os versos de “Pelo Telefone” (1916) já em seus primeiros acordes e tons. Célebre por ser considerada o primeiro samba gravado no Brasil e por ter sido cantada na voz de grandes artistas da música nacional, a canção de Donga e Mauro de Almeida é uma das diversas melodias presentes no repertório de Os Bambas – que têm sua grande estreia no palco do Itaú Cultural, no dia 20 de junho.

>> Saiba mais sobre o musical Os Bambas no Itaú Cultural

Concebido e roteirizado por Leandro Lehart, consagrado cantor e compositor brasileiro que faz sucesso com o grupo de pagode Art Popular desde a década de 1980, o espetáculo musical passeia pelas origens do samba e por suas raízes, misturando realidade e ficção em uma obra que se propõe – como ressalta Leandro – a homenagear os baluartes da musicalidade nacional.

Em uma das versões de “Pelo Telefone”, os sambistas cantam, com humor e leveza, ironias a uma suposta determinação da polícia do Rio de Janeiro da época para que se informasse antes, por telefone, aos infratores a apreensão do material de jogos de azar. Pensando nessa comicidade do samba, Leandro mergulhou numa verdadeira missão de cantar e contar – de forma dinâmica e divertida – todos os períodos do gênero que há muito desperta paixões e emoções pelo país.

Os Bambas foi exatamente um pretexto, seguindo o roteiro que eu escrevi, para contar a história do samba – desde 1920 até os anos 2000 – num espetáculo em que a gente passa por todas as décadas, todas as transformações que a música teve, todos os personagens, todos os artistas envolvidos. Passamos por várias vertentes do samba e contamos essa história de maneira cômica, engraçada”, explica Leandro.

No show, ele e seus companheiros de Art Popular se transformam em sambistas que integram o imaginário conjunto musical Os Bambas. A apresentação explora a concorrência e a rivalidade do grupo inventado com os Originais do Samba, formação de sucesso no Brasil e que teve em seu começo, na década de 1960, a liderança de Mussum – humorista, ator, músico, cantor e compositor brasileiro que também fez parte do conhecido quarteto Os Trapalhões. Leandro exalta a figura do artista, falecido em 29 de julho de 1994, como um dos suportes que teve para desenvolver o enredo do espetáculo.

O grupo Art Popular se transforma em Os Bambas no palco do Itaú Cultural  |  foto: André Seiti

“O Mussum, além de ser um cara extremamente musical, extrovertido, era uma liderança que representava vários grupos que estavam surgindo na época no Brasil e que traziam consigo uma sonoridade muito diferente. Por isso eu quis que Os Bambas entrassem nessa brincadeira de ser concorrente dos Originais do Samba nos anos 1960, para poder contar histórias verdadeiras – que aconteceram – e histórias que a gente inventou. As pessoas vão poder julgar o que é verdade, o que é brincadeira, o que é história, o que é apenas uma piada, enfim, é uma forma de contarmos a história do samba descontraidamente, sem nenhuma obrigação de mandar um recado histórico”, conta Leandro.

Parceria

A ideia de produzir Os Bambas surgiu para o cantor como um desejo de expandir o conhecimento geral das pessoas sobre o samba. Leandro, que sempre se dedicou a estudar todo o contexto e o desenvolvimento histórico desse gênero musical, levou cerca de um mês para finalizar a escrita da peça. “Escrevi tudo em um mês, mas baseado em pesquisas de muitos anos. Foi uma situação intensa, em que deixei de dormir, quase nem comia, não dormia, não fazia nada. Fiquei mergulhado naquilo porque acho que falta ainda muito. Faltam documentos oficiais e não oficiais, falta, sim, muita pesquisa musical sobre a importância do samba no Brasil.”

Antes de idealizar o musical, Leandro pretendia, na verdade, fazer com que Os Bambas fossem protagonistas de um filme. Mas a parceria com o jornalista e curador de música Alexandre Matias levou o cantor por outros caminhos. Como explica Alexandre, o projeto seria um modo interessante de reinventar o Art Popular, partindo do pressuposto da história do samba e transformando a montagem em uma nova turnê do grupo.

“Conheci o Leandro Lehart em 2017, quando ele participou de um show no Centro Cultural de São Paulo, onde sou curador de música. Nós mantivemos contato e, um tempo atrás, ele trouxe a história de que estava com um projeto para um filme. Depois de entender qual era o enredo, pensei que, antes de ser um filme, era um show – que pode, no futuro, se tornar um produto audiovisual. A ideia do projeto é toda do Leandro, mas eu entrei justamente para fazer com que essa idealização circule de forma interessante, que não queime todos os cartuchos de uma só vez”, conta Alexandre.

Ele salienta que o grande diferencial para levar o espetáculo adiante foi o entendimento que Leandro possui da história do samba no país. “Mais do que um artista, o Leandro é um intelectual do samba. Ele ainda é visto somente como líder do Art Popular. Não que isso seja pouca coisa – é muita coisa –, só que nós queremos focar esse outro aspecto, o do conhecimento histórico. O Leandro sabe da importância não só do samba, mas também da música em si do ponto de vista histórico da cultura do Brasil.”

A parceria entre Leandro Lehart e Alexandre Matias resultou na produção do musical Os Bambas  |  foto: Anna Carolina Bueno


De Pixinguinha a Raça Negra

Os Bambas se constrói no formato de um programa de auditório, no qual um apresentador – com trejeitos de Silvio Santos, Flávio Cavalcanti e Carlos Imperial – tenta desmascarar os integrantes da banda fictícia em rede nacional, acusando-os de plagiar os Originais do Samba. O espetáculo reúne referências aos clássicos do samba, como sons de Pixinguinha, Orlando Silva e Riachão, e carrega alusões espirituais ao medo que existiu entre os sambistas das décadas passadas de que o samba iria acabar devido ao sucesso de outro gênero musical da época.

“Os Bambas contam com um mentor – um sambista já falecido – que traz sambas do futuro para o passado. Assim, nós tocamos Raça Negra em 1968, por exemplo, como se esse mentor intelectual viesse nos nossos sonhos e trouxesse as músicas que vão acontecer depois da década de 1960. É uma brincadeira com a ideia de que o samba seria extinto pela discoteca. Assim misturamos passado e presente em uma forma de homenagem”, revela Leandro.

Art Popular n’Os Bambas

Com mais de 30 anos de carreira, o Art Popular possui grande tradição na cena musical brasileira, colecionando hits e discos lançados. Entre alternâncias nas formações do grupo, uma constante se manteve presente ao longo da trajetória dos componentes: o ritual mercadológico de gravação e shows a que tanto estão acostumadas as bandas musicais. Libertar-se um pouco dessa realidade foi, segundo Leandro Lehart, outra motivação para promover Os Bambas.

“Um dos grandes proveitos em desenvolver esse espetáculo foi poder sair da nossa zona de conforto, sair dessa questão somente mercadológica, de ir para o mercado, gravar disco, fazer show e pagar as contas, que é a rotina normal de todo artista. Sabemos das nossas limitações na questão da dramaturgia, mas a parte musical já era natural para a gente, então essa situação de passar seis meses ensaiando a apresentação deixou a gente muito feliz. Poder acordar, ir para o ensaio e falar 'Preciso melhorar o sotaque, preciso mudar a voz aqui, vou colocar uma peruca, colocar uma roupa, vou ficar em frente do espelho fazendo umas caretas', tudo é muito bacana”, explica o cantor. “É importante sair do seu hábitat natural, daquilo que você domina, e Os Bambas é exatamente o que nós não dominamos. O espetáculo está trazendo um grande fôlego para o Art Popular.”

E o que Os Bambas têm do Art Popular? Leandro reflete que o companheirismo foi essencial para que a produção saísse do papel. “Os Bambas vão mostrar uma intimidade entre eles que surgiu exclusivamente do Art Popular. No show, o único personagem carioca é o meu; todos os outros vieram de outra região do Brasil e, por isso, não possuem tanta familiaridade”, diz. “Existem situações engraçadas no enredo, como provocações, que são naturais do Art Popular, que as pessoas não vão saber se é do roteiro mesmo ou se é da convivência de três décadas do grupo. A intimidade veio do Art Popular, e isso ajuda a gente a brincar mais um com o outro, tornando o show animado e divertido como queremos que seja.” 

 

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