Qual é a história de sua maior saudade?

Talvez seja a vontade de voltar ao lugar anímico onde ficou a minha infância.
Eu tinha planos que nem eu sabia como poria em prática, mas eram os meus planos.
E ficaram lá.
Meu mundo meio que parou ali, naquele dia frio, diante da mala pronta de uma vida pronta...
Eu não poderia imaginar que aquele seria meu último dia como criança; que ali emudeceria para sempre tudo o que me fazia compreender a vida.
No entanto, o quintal, as folhas das árvores e até os pequenos animais sentiram, tentaram me alertar:
– Fuja, não vá embora, menininha russa, não cresça tão depressa!
Mas uma coisa era verdade, eu queria crescer, ser gente grande. E queria crescer sem perder a minha essência, sem me afastar de tudo o que era importante para mim.
Eu nunca me imaginei sem aquele território de pequenos acres que eram a minha vida.
O portão bateu atrás de mim dizendo:
– Já que não tem jeito, vá!
Quando voltei, nem era tão tarde assim. A árvore morta, as frutas tristes... E, ao olhar para o chão, inúmeros insetos insignificantes me acenavam, mas eu não os via mais como outrora, eu havia crescido, me tornado gente grande; aprestei-me para a luta.
Mas eu ainda tinha 6 anos de idade.
Nem sei dizer se é saudade mesmo, mas gostaria de reviver tudo aquilo que eu guardava para mim, ali.
O quintal também tinha passado, não existia mais.
– Fiquem quietos, ele está dormindo.
– Dorme em paz, meu quintal.

O que a emociona em seu dia a dia?

Eu sou a mais pura emoção! Tudo me comove, mexe comigo... Quando não sinto algo, fico apática, é que estou sendo atravessada por outro sentimento, outra emoção. Geralmente é a raiva.
Estou em tratamento.
As plantas me emocionam. O canto do galo que nem conheço... Ele grita lá, bem de longe, onde a floresta de casas e gente se perdem.
Ele grita:
– Socorro!
Eu me emociono com tanta solidão. Sempre penso que este é o último galo da minha história nesta terra, que nunca mais haverá outro canto. Que ideia terrível! Me entristece a ideia de finitude das coisas que gosto; tem aí uma nostalgia. Me emociono.
Só me alegro quando ouço que outro galo responde ali bem pertinho:
– O que é, Sandoval?
O dia consome a nossa história, distrai a gente, é barulho demais para tanta inocência.
A gente se perde e vai viver. E eu me emociono, mas nem sempre é de alegria.
No dia seguinte, no mesmo horário, como agora em que estou escrevendo, lá vem ele novamente dizendo:
– Jacira! (Ou será “Socorro?”)
E outro responde:
– Nunca me esqueça!

Como você se imagina no amanhã?

Eu não imagino o amanhã, eu desejo, espero. Terei coisas para resolver amanhã: deixo rastros, dívidas e dúvidas de propósito.
Até dou ideias ao Criador para que me preserve por mais um dia. E tem dado certo! Eu me sinto ouvida, atendida... Sou um verdadeiro milagre.
Mil armadilhas racistas, machistas, misóginas, homofóbicas, etárias... E eu estou aqui escrevendo sobre o amanhã.
Que venha, que tenha! Só peço isso.
E que eu nunca esteja tão só como agora. Nem mal acompanhada. Se me virem assim, podem apartar que é uma briga.

Quem é a Dona Jacira?

Sou uma mulher velha, preta, que já foi moça, que já foi criança, que já foi.
Um dia destes quando o joelho doeu, ela descobriu que envelheceu e que está linda, muito mais linda do que imaginara ser um dia.
Sem cabelo alisado, sem vestido rendado, sem a pele lisinha, mas com uma lucidez totalmente minha.
Não me faltou o mundo, que nunca me negou nem amores nem horrores. Eu sabia que tinha algo errado comigo e ninguém me contava. Fui buscar no infinito e ele me contou minha verdadeira história, a de ser quem eu sou.
Tenho poucos amigos.
Filhos que amo demais.
Netos que são tão ou mais que filhos.
Todavia posso estar mentindo... E, para saber mesmo quem sou, talvez eu mesma precise perguntar para alguém mais.
Não se fie apenas nesta que voz fala.

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Fotografia colorida horizontal de Dona Jacira. Ela é uma mulher negra com cabelo loiro crespo e curto, com a raiz mais escura. Ela está com óculos de grau roxos, brincos e colar com pingentes arredondados, camiseta estampada nas cores azul, roxa, preta e branca e um crochê bege por cima. Segurando uma xícara branca na mão esquerda, ela olha para a frente, com um quase sorriso. Ao seu lado esquerda há um coador de café. Ao fundo, uma janela com grades de madeira deixa ver partes de uma árvores e uma parede de tijolos.
Dona Jacira (imagem: Demétrios dos Santos Ferreira)

Um Certo Alguém
Em Um Certo Alguém, coluna mantida pela redação do Itaú Cultural (IC), artistas e agentes de diferentes áreas de expressão são convidados a compartilhar pensamentos e desejos sobre tempos passados, presentes e futuros.

Os textos dos entrevistados são autorais e não refletem as opiniões institucionais.

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Fotografia horizontal colorida mostra duas pessoas da cintura para cima se abraçando. À direita, uma mulher negra com cabelo preto trançado e raízes brancas, com brinco de ouro e vestindo uma blusa florida branca e azul marinho. Ela está de olhos fechados e apoia seu rosto no ombro da outra pessoa. A pessoa da esquerda também é negra e tem rosto e corpo cobertos por uma longa peruca de palha, que forma um coque em cima da cabeça e tem algumas contas presas nela. Ao fundo há vegetação.

Inventário: Saudade

Nesta nova coluna mensal, dois fotógrafos recebem uma palavra e são convidados a transformá-la em imagem e texto