por William Nunes de Santana

Em seu texto de apresentação publicado no site oficial da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), Antonio Araujo, idealizador e diretor artístico do evento, disse o seguinte: “Uma Mostra não apenas mostra, mas provoca, agita, convulsiona”. E, de fato, foi o que aconteceu.

A sétima edição da MITsp, que ocorreu de 5 a 15 de março em diversos palcos da capital paulista – inclusive no Itaú Cultural (IC) –, jogou luz sobre uma série de questões que afligem a sociedade e, consequentemente, a produção artística – neste caso, a cena teatral.

Em entrevista ao IC, Antonio falou sobre a programação deste ano, a relação com o outro e o desenvolvimento da MITbr – Plataforma Brasil, projeto de internacionalização de artes cênicas que traz representantes de festivais para acompanharem a programação e a produção brasileira.

Antonio Araujo, diretor artístico da MITsp (imagem: Guto Muniz)

Como a MITsp e a cena teatral nacional, como um todo, abordam as questões contemporâneas da sociedade?

Ser crítico do próprio tempo – do nosso lugar no Brasil e do aqui e agora – é uma questão que forma a base da nossa programação. Acredito que isso englobe todas as exibições da MITsp.

Nesta edição, por exemplo, tivemos o feminismo e a violência contra a mulher, que apareceram na peça Tenha Cuidado [apresentada no próprio Itaú Cultural] e no Sábado Descontraído, espetáculo africano que trata do genocídio em Ruanda, mas relacionando isso com a violência contra a mulher.

A questão trans também ganhou destaque com dois espetáculos: o Casa Mãe, feito pela Phia Ménard, uma das artistas trans mais conhecidas – ainda que o texto não aborde essa temática, ele é interpretado por uma artista trans –, e o espetáculo da Travis Alabanza – filipina que mora no Reino Unido –, o qual, neste caso, além de apresentar uma artista trans, carrega esse tema, já que ela conta um episódio de transfobia que sofreu.

Ainda tivemos um evento especial para comemorar os dez anos do monólogo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que marcou a história não só do teatro trans, mas desse ativismo. Uma peça que causou muita polêmica quando foi criada na Escócia e que sofreu censura no Brasil quando foi interpretada pela Renata Carvalho.

Por fim, o seminário Encontra das Pedagogias da Teatra, que reuniu pessoas trans para discutir não apenas a pedagogia do teatro, mas a pedagogia em geral, qual é a contribuição do pensamento trans para essa pedagogia contemporânea e, ao mesmo tempo, como o ensino hoje consegue absorver essa realidade.

Como a relação com o outro foi representada?

O trabalho O Pedido retratou um refugiado do Congo que tenta entrar e permanecer no Reino Unido, porém não consegue por causa de muros burocráticos que o impedem de ficar. Um drama em que ele não pode voltar ao Congo, pois lá está sendo perseguido, mas por ser diferente tem de ser mantido fora do Reino Unido.

O trabalho dos chilenos também foi incrível, o Tu Amarás, ficção científica na qual um grupo de extraterrestres chega à Terra e os terráqueos ficam muito incomodados com eles; e ali há toda a questão do preconceito, da rejeição, da expulsão, da violência.

O outro que é tratado como inimigo e que, por ser diferente, deve ser eliminado.

Tivemos um dado importante que apareceu nos trabalhos do português Tiago Rodrigues, que se refere à memória como resistência política, uma forma de se contrapor aos governos autoritários, aos fascismos, ao regime ditatorial. São questões que estiveram presentes na mostra.

Gostaria que você comentasse um pouco sobre os programadores que acompanham a MITbr – Plataforma Brasil. Como tem sido essa experiência?

Esta é a terceira vez que usamos a plataforma e, apesar de ser muito nova, já mostrou a sua força. Desde a primeira edição, em 2018, contamos com atrações que têm circulado bastante, sendo convidadas para festivais internacionais.

Por exemplo, o espetáculo De Carne e Concreto, de Brasília, na primeira edição circulou muito; O Lobo foi convidado para ir a Nova York; a Marta Soares [bailarina e coreógrafa] foi para a Bélgica; A Boca de Ferro, de Marcela Levi, que acabou sendo convidada pelo diretor do curso para que ele produzisse o seu próximo espetáculo em 2021, no Kunsten, um dos festivais mais importantes do mundo, que acontece na Bélgica.

É muito curioso ver essa evolução, pois quando começamos muitas pessoas nos disseram que teríamos resultados após cinco ou seis anos. E não foi o que aconteceu. Os bons resultados ocorreram logo na primeira edição. No ano passado, a visibilidade e a circulação já melhoraram, e vamos ver o que acontece neste ano.

Temos um número maior de programadores – entre nacionais e internacionais, contamos com quase cem profissionais. Estamos apostando que essa ação, à medida que tem continuidade, gera uma forte atração a quem está buscando essa opção de teatro no Brasil, um trabalho que é mais artisticamente investigativo.

Com o passar do tempo, a plataforma vai acabar configurando-se como um ponto de encontro de programadores nacionais e internacionais para ver a cena teatral brasileira, um lugar em que encontramos trabalhos de qualidade. Espero que ela possa se consolidar.

Esse intercâmbio reflete na produção que se avista, que será feita nos próximos anos?

É difícil dizer, mas acredito que, quando entramos em contato com uma produção contemporânea, tanto o artista quanto o público, isso educa o nosso olhar. E uma educação pelo olhar – seja de algo de que se gosta muito, seja daquilo que se rejeita e recusa – vai nos formando, nos ajudando a encontrar o próprio caminho. Para o artista, até mesmo em outra dimensão, pois se destaca confrontando a sua própria obra. No caso do público, quem vê muito teatro – teatro de qualidade – não aceita mais bobagens, produções fracas e amadoras; seu olhar está direcionado para outro tipo de trabalho. Portanto, essa formação é muito importante.

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