por Encontro com Espectadores – Maria Eugênia de Menezes

As motivações e os percalços na escolha do texto De Volta a Reims foram alguns dos aspectos abordados por Pedro Vieira, ator, e Reni Adriano, dramaturgo, durante o 29o Encontro com Espectadores.

Realizada no dia 26 de maio, no Itaú Cultural, em meio a protestos que ocorriam na Avenida Paulista em favor do governo de Jair Bolsonaro, a conversa tratou das linhas de força que organizam o espetáculo em questão. Com direção de Cácia Goulart, a peça fala da formação da subjetividade de um intelectual gay e de suas dificuldades em reconhecer o seu lugar de classe.

Beth Néspoli conduziu a conversa de Reni Adriano e Pedro Vieira com o público (imagem: Agência Ophelia)

O texto é uma livre adaptação da autobiografia do filósofo francês Didier Eribon – reconciliado com sua orientação sexual, ele reluta em assumir sua classe social de origem. Na obra, o narrador, vivido por Vieira, retorna à sua cidade de origem após um hiato de 30 anos. Mobilizado pela morte do pai e por encontros com a mãe, ele passa a tematizar o abandono da família, mas também temas que extrapolam o âmbito privado, como os conflitos de identidade da classe trabalhadora, a ascensão da extrema direita na Europa e os erros da esquerda.

Com mediação da jornalista e crítica Beth Néspoli, o debate tratou com atenção do processo de adaptação do texto, que já foi encenado em três países: França, Bélgica e Alemanha, para onde foi levado pelo diretor Thomas Ostermeier.

O desejo de montar De Volta a Reims partiu de Vieira, que assistiu a uma versão da obra no Festival de Avignon em 2017. Após algumas tentativas de transposição fiel da autobiografia e de dificuldades em negociar os direitos com o autor, o dramaturgo Reni Adriano relatou a opção por outro modelo, em que as ideias de Eribon pudessem ser trazidas de maneira mais acessível. “Foi um processo de desintelectualizar o texto”, disse Adriano.

Ainda que a diretora da peça não estivesse presente, a crítica Beth Néspoli e os espectadores participantes abordaram diversos aspectos da encenação na conversa. Entre esses tópicos, pode-se destacar a maneira simples e criativa com a qual as diversas citações presentes no livro que inspirou a montagem são trazidas à cena. “Os trechos citados não estão na obra para distanciar o público. As citações surgem como acontece na vida de qualquer grande leitor”, considerou o dramaturgo.

Reni Adriano falou que a ideia foi desintelectualizar o texto original de Didier Eribon (imagem: Agência Ophelia)

A conversa versou ainda sobre a composição da equipe criativa. De Volta a Reims é mais uma parceria entre a diretora Cácia Goulart e o ator Pedro Vieira, que trabalharam juntos no espetáculo Eu Tenho Tudo, de 2016. Naquele ano, Vieira foi indicado ao Prêmio Shell de Melhor Ator por sua atuação. “A nova parceria com Cácia Goulart foi uma maneira de me policiar para não repetir as estratégias do trabalho anterior”, pontuou o intérprete.

O ator Pedro Vieira conversou com o público sobre a encenação de De Volta a Reims (imagem: Agência Ophelia)

A 30a edição do Encontro com Espectadores, em 30 de junho, será dedicada à peça As Cangaceiras – Guerreiras do Sertão. Inspirado em depoimentos reais, o espetáculo musical exalta a força da mulher nordestina, e o texto é assinado por Newton Moreno, que participará da conversa ao lado da atriz Luciana Lyra, com mediação de Valmir Santos.

A obra, com cinco músicos em cena (baixo, violão, guitarra, violoncelo e acordeão), conta a história de mulheres que se rebelaram contra mecanismos de opressão do próprio cangaço. Além de reflexões sobre o movimento histórico, o espetáculo lança um olhar para formas de resistência do feminino, além de questionar os conceitos de heroísmo e cidadania.

As Cangaceiras – Guerreiras do Sertão está em cartaz no Teatro do Sesi/SP (Avenida Paulista, 1313, São Paulo/SP) até 4 de agosto – de quinta a sábado, às 20h; aos domingos, às 19h. Os ingressos são gratuitos e devem ser agendados pelo site centroculturalfiesp.com.br. Ingressos remanescentes serão distribuídos na bilheteria do teatro no dia da apresentação, 15 minutos antes do início do evento.

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