por Encontro com o Espectador – Beth Néspoli

“A gente não anda só”. Assim o ator e diretor Jé Oliveira, um dos fundadores do Coletivo Negro, iniciou sua participação, ao lado da cantora Juçara Marçal, na 27ª edição do Encontro com Espectadores, em março. Ele fazia referência aos parceiros de criação do espetáculo Gota d’Água {Preta}, debatido nessa ação idealizada pelo site Teatrojornal – Leituras de Cena, que ocorre todo último domingo do mês, no Itaú Cultural, em São Paulo (SP), reunindo críticos, criadores e espectadores em torno de uma montagem previamente escolhida.

Significativa, a expressão bem poderia se estender ao que o mediador do encontro, o jornalista Valmir Santos, chamou de efervescência da cena negra, cada vez mais intensa nas ribaltas. Não se trata apenas da atuação protagonista de corpos historicamente ausentes dos palcos ou secundarizados nas dramaturgias – sem menosprezar esse ato por si só transformador do campo da recepção –, mas sobretudo da emergência de novas poéticas, criadas sobre diferentes paradigmas culturais, um movimento com potencial para interferir profundamente tanto no âmbito mais amplo do imaginário coletivo quanto no mais restrito dos estudos teatrais.

Integrantes da peça "Gota d'Água {Preta}" (imagem: divulgação)

Não por acaso, em texto sobre essa cena publicado no Teatrojornal, Santos destaca os elementos da mitologia africana moldados nas formalizações poéticas de Gota d’Água {Preta} e do espetáculo [In]justiça, dirigido por Miguel Rocha e criação dos artistas da Cia. Teatro de Heliópolis, em cartaz simultaneamente. No encontro, foram discutidos ainda os procedimentos musicais e espaciais, entre outros, da encenação dirigida por Oliveira, que atualiza a peça original, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes e cuja primeira montagem estreou em 1975, sob direção de Gianni Ratto, com Bibi Ferreira no papel agora assumido por Juçara.

Para quem não assistiu ou gostaria de rever Gota d´Água {Preta}, estão programadas novas apresentações de 10 a 12 de maio no Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer e de 15 a 19 do mesmo mês no Galpão Folias. Como sempre ocorre, o encontro foi gravado em áudio e, em breve, estará publicado nas páginas do Teatrojornal.

Marcando a renovação do apoio do Itaú Cultural ao evento, o 27º Encontro com Espectadores foi o primeiro deste ano e, coincidentemente, transcorreu no dia 31 de março, na mesma tarde em que, na Avenida Paulista, grupos disputavam narrativas sobre o golpe militar de 1964. Parte desses manifestantes negava as evidências de autoritarismo de um governo que durante 21 anos sequestrou direitos básicos, entre eles, o de escolher o presidente da Nação e o de livre defesa, como comprovam documentos e testemunhos dos que viveram literalmente na carne atos arbitrários de aprisionamento sem processo judicial. Mais do que nunca, dialogar é preciso. Melhor ainda quando isso é feito com a mediação lúdica da cena sobre questões sociais e políticas.

Assim será também na realização do 28º Encontro com Espectadores, que terá como objeto de discussão o espetáculo Apenas o Fim do Mundo, do Grupo Magiluth. Fundada no Recife em 2004, essa companhia celebra 15 anos de existência com uma pequena mostra de repertório no Sesc Avenida Paulista. Iniciada em março com a apresentação de Aquilo que Meu Olhar Guardou para Você (2012), seguida de Dinamarca (2017), inspirada na tragédia Hamlet, será encerrada com o inédito Apenas o Fim do Mundo, do francês Jean-Luc Lagarce, espetáculo dirigido por Giovana Soar, também tradutora do texto e atriz da curitibana Companhia Brasileira de Teatro, e por Luiz Fernando Marques, diretor do paulistano Grupo XIX de Teatro.

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