por Letícia de Castro

Foi depois de fazerem juntos uma reportagem em um presídio em Minas Gerais que a jornalista Natália Martino e o fotógrafo Leo Drumond decidiram criar o projeto Voz. A ideia era lançar luz e provocar o debate sobre a realidade carcerária brasileira tendo os próprios internos como protagonistas desse processo. Depois de intensa negociação com a penitenciária, conseguiram autorização para promover oficinas de texto, fotografia e vídeo com os internos, que, ao final do processo, produziram todo o conteúdo do primeiro volume da revista A Estrela.

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Da edição piloto totalmente independente até o primeiro (e único) apoio foram dois anos de batalha, buscando aprovação em leis de incentivo e fazendo dezenas de inscrições em editais. “Uma das dificuldades em conseguir parceiros para esse projeto é o preconceito e o desconhecimento sobre a questão carcerária. Ninguém quer ligar sua marca a esse tema”, conta Natália.

Projeto A Estrela (imagem: divulgação)

As coisas começaram a mudar em 2016, quando a dupla foi contemplada pelo Rumos Itaú Cultural. Com o suporte do programa, puderam realizar o projeto em quatro cidades mineiras entre 2016 e 2018: Itaúna, São João del-Rei, Rio Piracicaba e Vespasiano. Quatro revistas foram totalmente produzidas por internos e internas das penitenciárias desses municípios e, ao final do processo, o material foi exposto em uma galeria de arte e no Tribunal de Justiça de Belo Horizonte. Distribuídas entre o meio jurídico, as publicações trazem entrevistas, narrativas pessoais, poesias, histórias em quadrinhos, fotos e vídeos em que os internos registram suas histórias de vida e refletem sobre suas realidades. “Usamos ferramentas de comunicação em um projeto artístico. Usamos a arte como instrumento para gerar reflexão nas pessoas”, diz a jornalista. Para além do preconceito com o tema, a multidisciplinaridade e a dificuldade de “encaixar” o projeto em categorias estanques de linguagem também prejudicaram a busca por patrocínio.

A Estrela é um bom exemplo dos impactos que as mudanças realizadas no Rumos Itaú Cultural em 2013 provocaram no cenário cultural brasileiro. Naquele ano, o programa foi totalmente reformulado e passou a concentrar todas as áreas de expressão artística e cultural em um mesmo edital, possibilitando que projetos que atuam em fronteiras de linguagem sejam contemplados.

Criado em 1997, o Rumos surgiu com o objetivo de valorizar a diversidade e estimular a criatividade e a reflexão sobre a cultura no país, selecionando artistas e pesquisadores de diferentes áreas. Em suas primeiras edições, eram lançados editais específicos para cada linguagem. De 1997 a 2013, foram realizados editais de artes visuais, arte e tecnologia, dança, música, cinema e vídeo, educação, literatura, jornalismo cultural e gestão cultural, que apoiaram 464 projetos artísticos e culturais em todo o país. “O Rumos é o lugar onde o Itaú Cultural exercita o seu olhar sobre o novo na cultura. Na primeira fase do programa, nosso objetivo era estimular os artistas emergentes e atuar nos gargalos de produção, incentivar projetos em áreas que ainda não conseguiam apoio em outras iniciativas”, afirma Ana de Fátima Sousa, gerente de comunicação do Itaú Cultural e uma das responsáveis pelo Rumos.

Em 2012, com o programa já consolidado, veio a necessidade de mudança. Foram chamados especialistas de diversas áreas para discutir e analisar as características do Rumos e as novas demandas do cenário cultural brasileiro. Dessas discussões, surgiram duas questões centrais: era preciso desburocratizar o processo de inscrição e o edital deveria tornar-se multidisciplinar, sem as divisões por linguagens.

No ano seguinte, foi lançado o primeiro edital com o novo formato. Ele se tornou bienal e passou a incluir todas as áreas de expressão. Reestruturado, o Rumos se distanciou da rigidez típica dos editais, cheios de formulários e exigências dos patrocinadores, possibilitando que os artistas e produtores retomassem o protagonismo no processo. Com isso, abriu espaço para ideias que não se enquadravam em categorias rígidas e predeterminadas, mas que traziam discussões importantes no cenário contemporâneo que não encontravam eco na grande maioria das instituições culturais – como é o caso do projeto de Natália e Leo.

“Com essa mudança, o Itaú Cultural se abriu para um novo lugar na cultura. Tínhamos um peso grande nas artes, mas conseguimos abrir espaço para projetos culturais, de produção de conteúdo, fortalecendo outros campos. A mudança foi boa para abrigar projetos que não eram contemplados em outros editais”, diz Ana. Um levantamento qualitativo do perfil de projetos contemplados nas três últimas edições comprova essa percepção. Se na edição de 2013-2014 46% dos projetos eram exclusivamente artísticos, nas edições seguintes esse número caiu para 32% e 33%, respectivamente. Já os projetos exclusivamente culturais foram de 10% (2013-2014) para 11% (2015-2016) e 31% (2017-2018).

Diversidade

Com a unificação do edital, a inscrição tornou-se mais simples também. Feita exclusivamente on-line, passou a trazer perguntas e respostas nas quais o proponente explica e defende a sua ideia. Em 2015-2016, o limite orçamentário de 400 mil reais por projeto foi suspenso, possibilitando que os valores fossem definidos de acordo com as necessidades artísticas. Na edição mais recente, de 2017-2018, quando o Rumos comemorou 20 anos de existência, também foram incluídos no processo de inscrição recursos de acessibilidade, como vídeos com interpretação em Libras e audiodescrição.

Todas essas mudanças tinham como objetivo tornar o edital mais inclusivo e mais simples, para que pudesse refletir a diversidade cultural do país e ampliar a representatividade de outras regiões para além do onipresente Sudeste. A reformulação visava atrair estados que historicamente tinham pouca participação no programa, como os da Região Norte.

Para ajudar na divulgação do programa nessas localidades, foram criadas as Caminhadas Rumos, uma série de apresentações e bate-papos com gestores do Itaú Cultural, para apresentar o edital e tirar dúvidas de candidatos. Essa divulgação por cidades brasileiras sempre foi uma preocupação, e, desde a edição de 2013-2014, pelo menos as 27 capitais do país são visitadas a cada novo edital.

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A escolha dos projetos também sofreu mudanças e passou a ser feita em etapas. Após uma primeira avaliação por uma equipe de 40 profissionais, é a vez de a comissão de seleção composta de gestores do Itaú Cultural e especialistas das diversas áreas de expressão e de diferentes regiões do país, num total de 22 pessoas, decidir quais projetos serão apoiados, a partir de três critérios básicos: relevância, singularidade e consistência.

“É um processo intenso. Tive contato com mais de 500 projetos e dedicava rotineiramente uma parte do dia, ao longo de meses, para analisá-los. Não acredito em parâmetros que se supõem imparciais ou totalmente externos às subjetividades que estão neste delicado e controverso lugar de avaliação. A minha parcialidade amparou-se no que considerei autêntico, coerente, estético e que oferecesse outras narrativas que não as hegemônicas”, diz Tiganá Santana, membro da comissão de seleção na edição de 2015-2016. Cantor, compositor, poeta e instrumentista nascido em Salvador (BA), Tiganá avaliou projetos de diversas áreas, não apenas da área musical.

Para o jornalista e crítico de teatro Valmir Santos, membro das comissões de seleção de 2013-2014 e de 2015-2016, a oportunidade de entrar em contato a diversidade de propostas, de todas as regiões do país, é um dos grandes méritos do Rumos. “Ele nos obriga a sair da nossa zona de conforto e exercitar um olhar mais atento para o novo e diferente”, diz.

Valmir Santos, membro das comissões de seleção de 2013-2014 e de 2015-2016 (imagem: André Seiti)

Uma vez aprovados, os grupos e artistas passam a contar não apenas com o apoio financeiro do Itaú Cultural, mas com o suporte estratégico da instituição. Cada projeto aprovado é acompanhado por um produtor do instituto, que discute desde as questões burocráticas até questões jurídicas e assessoria de imprensa. “É completamente diferente dos outros editais, em que você recebe o valor e depois apresenta um monte de planilhas de prestações de contas. Aqui existe uma parceria e um envolvimento total da instituição na execução do projeto”, diz Iarlei Rangel, do Grupo Esparrama de teatro, contemplado na edição de 2013-2014 do programa.

O Rumos foi o primeiro edital que o grupo ganhou, com um projeto que, na época, era uma incógnita. Minhoca na Cabeça era uma peça de teatro apresentada da janela de um apartamento no Minhocão. As performances aconteciam aos domingos, quando o elevado fica fechado para carros. “Foi uma aposta, uma parceria muito interessante, porque nós tínhamos consciência de que o projeto poderia não acontecer por problemas operacionais. Poderiam proibir as apresentações no espaço público, não tínhamos autorizações naquele momento, mas o instituto acolheu aquele risco como parte do processo. Para além do resultado, nós percebemos que existe um enfoque muito grande no processo criativo e na liberdade dos artistas, que é fundamental”, diz Iarlei.

Grupo Esparrama (imagem: Sissy Eiko)

Para Bernardo Borges Buarque de Hollanda, coordenador do MBA em Bens Culturais da Fundação Getulio Vargas (FGV), a longevidade do Rumos – que em 2019 chega a 22 anos de existência – é, por si só, um feito notável dentro do turbulento cenário de políticas culturais no Brasil. “É frequente, no Brasil, as políticas culturais – tanto as públicas quanto as privadas – serem instáveis e efêmeras. Não custa lembrar que o MinC foi criado em 1986 e, de lá para cá, já foi descontinuado por duas vezes, rebaixado à condição burocrática de uma secretaria, sob a égide do Estado mínimo, contrariando o princípio constitucional do direito à cultura. O Rumos soube atravessar essas turbulências e vem se afirmando como uma referência incontornável, capaz de alcançar produtores pequenos e médios, quando não anônimos, situados em regiões distantes, que até então passavam ao largo da atenção do setor”, diz.

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