Há um ano eu vi uma mulher negra iniciar um fenômeno cultural em meio ao caos. Teresa Cristina, aquariana nascida no ano que não terminou, iniciou, assim como quem não quer nada, suas lives diárias para sobreviver a um mundo sem shows, sem amor aglomerado, sem samba do trabalhador nas segundas. Por alguma sorte e um tanto de amor nascido no Carnaval, eu tive a honra de ver a sementinha de amor plantada em 2020 virar uma revolução de compartilhamento de amor e rebeldia.

Para aqueles e aquelas que acham que resistência é feita só em ações diretas, talvez seja difícil entender o quanto de resistência está contido no movimento cultural que Teresa protagonizou. Suas lives, realizadas em sua casa sem superequipes e patrocínios milionários, trouxeram para quem as acompanha uma cantora que encanta com sua voz, mas também com sua risada e bastante com suas lágrimas emocionadas com a presença das pessoas que ela admira. Cheia de “aquarianices”, Teresa espalha amor. Não esse amor romanesco, um amor preocupado em exterminar o medo.

Mulher negra está de lado, com os cabelos soltos, camisa preta de botão e batom vermelho. Ela está sorrindo.
A cantora Teresa Cristina virou um fenônemo das lives no Instagram, durante a pandemia, em 2020 (imagem: divulgação)

Das lives que entravam madrugada adentro, com centenas de pessoas aguardando para conversar, cantar e tecer memórias com Teresa, aprendi muito. Conheci vozes de todas as cores, gêneros, sexualidades, idades e lugares do Brasil. Aprendi sobre música, cultura, política e afeto. Chorei, ri, cantei. Vi as centenas de gente virarem milhares. Também vi uma mulher que não cede, que insiste em ser porta-voz de um Brasil que vive pulsante e bem menos acuado do que muita gente pensa por aí.

Teresa é letra-oral-poesia. Expressa, em uma linguagem cheia de desejos revolucionários, uma comunidade que não esconde suas vulnerabilidades e faz delas potência para semear dias melhores. É por meio de sentimentos que divergem radicalmente do que está no poder que essa mulher se impõe. Entre conversas íntimas com os amigos, a gente vê Teresa gargalhar na cara do perigo. Com os olhos que se apertam para achar quem quer falar com ela, convida a gente a buscar refúgio em histórias cantadas e em canções contadas.

Faz quase um ano que tudo que a gente conhecia como cotidiano mudou. Quase um ano que vi Teresa trocar o medo pelo anseio de viver. Quase um ano e, infelizmente, não tivemos dos governantes o mesmo compromisso com a vida que Teresa tem. Ao contrário, em quase um ano assistimos a um aumento do descaso, presenciamos lideranças políticas afirmando que a pandemia era só uma gripezinha. A fome aumentou, milhões de pessoas morreram, os insumos para conter o vírus são escassos e o descompromisso público coloca a cada dia a vida do povo brasileiro em situação de maior vulnerabilidade. Voltamos aos índices de miserabilidade, e um país que extinguiu a fome hoje vê muitos dos seus habitantes sem ter nem um prato de feijão à mesa.

Os planos daqueles que acreditam no afeto como rebeldia, os planos daqueles que tiram da poesia força para viver, certamente não eram esses. Ouso dizer que Teresa preferiria comemorar sua vida, sua sobrevivência e sua potencialidade do mesmo jeito com que comemorou em fevereiro passado, na presença física dos amigos de longa data e dos amigos que chegaram. Infelizmente, nossos planos precisaram mudar. A mudança dos planos é necessária porque queremos viver. Precisamos. Iremos viver para ver Teresa derramar suas aquarianices sobre o Brasil que pulsa cantando histórias para aqueles que acreditam que podemos vencer o medo.

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