por Encontro com Espectadores – Beth Néspoli

No modo de ver dos gregos antigos, quando a arrogância dos soberanos leva à perda da capacidade de escuta e autocrítica, eles atraem males não apenas para si próprios, mas para toda a cidade. Daí a função educativa das tragédias, que, ao provocar identificação e comoção, podem alterar comportamentos nefastos, evitando catástrofes – por meio da chamada catarse.

Logo na abertura do Encontro com Espectadores, o jornalista Valmir Santos destacou essa ação exercida pelo musical As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão, por ele considerado a um só tempo engajado, no sentido de que convoca à luta, e catártico, pela intensidade com que toca a emoção do espectador.

Com dramaturgia de Newton Moreno, que participou do encontro junto com a atriz Luciana Lyra, ambos pernambucanos radicados em São Paulo, As Cangaceiras é uma fábula que gira em torno de uma rebelião de mulheres do cangaço, como ficou conhecido o fenômeno da existência de bandos armados na Região Nordeste entre os séculos XIX e XX.

“O pessoal é político”: o slogan feminista foi lembrado por Luciana nessa 30ª edição, que celebrou três anos de existência do Encontro com o Espectador, ação do site Teatrojornal – Leituras de Cena que se configura como uma conversa entre criadores, críticos e espectadores sobre um espetáculo previamente escolhido. Realizado com o apoio do Itaú Cultural, ocorre todo último domingo do mês na Sala Vermelha do instituto, na Avenida Paulista, como naquela tarde de 30 de junho.

Ainda que seja evidente a relação apontada pelo slogan mencionado por Luciana, atriz que interpreta a aguerrida personagem Viúva no musical, é preciso uma dramaturgia de tessitura muito bem elaborada para puxar os grandes fios da dimensão pública na intrincada teia das relações privadas e seus afetos: amores e ódios, mesquinharias e grandezas, intrigas e dramas.

Desvelar a implicação da organização social e política nos vínculos intimistas é meta ambiciosa alcançada com êxito nesse espetáculo, que tem 13 atores e atrizes no elenco, entre eles Vera Zimmermann e Marcello Boffat, também presentes ao encontro. Moreno destacou a importância de desenhar com estatura humanizada cada uma das personagens em cena, em vez de criar uma fábula que desse protagonismo absoluto à líder da revolta.

O autor comentou ainda sobre ter atentado para trazer à cena as contradições desse movimento que muitas vezes é tratado como libertário, mas mantém relações internas autoritárias e opressoras, como era de esperar, pois são traços da sociedade patriarcal no qual está inserido. Para revelar os paradoxos do cangaço, a vasta pesquisa documental foi importante, mas Moreno frisou não terem encontrado, até agora, nenhum testemunho de que tenha havido uma revolta de mulheres naquele ambiente específico.

Luciana, porém, que além de atriz é pesquisadora acadêmica com tese sobre o mito da guerreira, falou a respeito de um grupo de mulheres armadas que lutou contra os holandeses no século XVII, em Tejucupapo, lugarejo situado na Zona da Mata de Pernambuco. “Quem sabe quantas outras rebeliões femininas existiram e não tomamos conhecimento?”, perguntou ela. “O desejo de falar sobre essas vozes silenciadas estava na raiz do projeto”, argumentou Moreno.

Vale lembrar um motim similar ocorrido no dia 4 de setembro de 1875, na cidade de Mossoró (RN), quando centenas de mulheres saíram às ruas armadas com utensílios domésticos, entre eles facas e espetos, invadiram repartições públicas e delegacias, e rasgaram os papéis de convocação dos filhos e dos maridos para o Exército e a Marinha. Todo ano a cidade relembra esse e outros feitos, em setembro, no chamado Auto da Liberdade.

O espectador Wanderley, professor de direito, lembrou da poeta grega Safo (630 a.C.-604 a.C.), cuja obra igualmente foi mantida no ostracismo por longo período. Foram muitas as interações e, entre elas, a da estudante Carol, que comentou já ter acompanhado sete apresentações de As Cangaceiras. Para ela, o que se aprende com o musical é que ninguém pode aceitar tratamento indigno, “nada menos do que ser considerado um ser humano”.

O espetáculo realizado pelo Sesi/SP foi dirigido por Sergio Módena. Como ocorre em todas as edições do Encontro com o Espectador, a conversa foi gravada em áudio, que será transcrito, e em breve estará editada no Teatrojornal. Cada peça escolhida é ainda objeto de análise em texto publicado no site, um acervo que se acumula sobre um recorte de repertório do teatro brasileiro.

Edição de julho

Definido como tragicomédia musical, Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu é o espetáculo que estará em debate na 31ª edição do Encontro com o Espectador, no último domingo de julho, dia 28. Na década de 1970, o dramaturgo santista Carlos Alberto Soffredini (1939-2001) recebeu três dos mais importantes prêmios teatrais à época – Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp) e Mambembe – pelos textos de Vem Buscar-me, dirigido por Iacov Hillel junto com o Grupo de Teatro Mambembe, do qual fora um dos fundadores, e Na Carreira do Divino, encenado pelo Pessoal do Victor.

Soffredini é autor ainda de O Pássaro do Poente – que rendeu mais uma montagem premiada, sob a direção de Marcio Aurélio – e do roteiro do filme Marvada Carne, do cineasta André Klotzel. Na década de 1990, Gabriel Villela voltou a encenar Vem Buscar-me, com Laura Cardoso no papel que na montagem atual – em cartaz no Teatro João Caetano, em São Paulo – é vivido pela atriz Bete Dorgam.

Nessa versão, já apresentada no Itaú Cultural no mês passado, a direção é de Renata Soffredini, filha do autor, e a direção musical de Fernanda Maia, que assina a mesma função em As Cangaceiras. Não é o único ponto de contato. Soffredini é autor que dedicou sua vida à pesquisa das formas populares, sempre em busca de uma dramaturgia capaz de sensibilizar pessoas de diferentes faixas etárias e formações culturais. Vem Buscar-me retrata uma trupe circense e sua luta por sobrevivência – e, mais uma vez, as questões que atingem um pequeno grupo servem de ponte para tratar de problemas de grande amplitude social.  

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