por Milena Buarque Lopes Bandeira

“Como realizadora no cinema, nunca tive o desejo de empreender algo. No entanto, vi que a única forma de ser vista era se eu empreendesse um circuito. Vi que tinha muita gente produzindo, mas nada aparecia nos jornais e nas revistas”, conta Yasmin Thayná, cineasta e diretora de Kbela (2015), uma experiência sobre ser mulher e tornar-se negra.

No intuito de reduzir a desproporção existente na etapa de distribuição da indústria audiovisual, Yasmin criou, em 2016, a Afroflix, uma plataforma digital e colaborativa que veicula conteúdos com a seguinte condição: as produções devem contar com “uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra”.

“É uma plataforma em que a gente não cobra nada. Ela teve um investimento total de zero bilhão de reais. Entendo o espaço de realização no Brasil como um lugar de empreendimento. Não é possível fazer cinema hoje no Brasil sem criar um circuito de exibição, sem ser multitarefas. Não é nenhuma novidade para mim”, afirma. A cineasta parece mesmo se encontrar no campo de quem se lança em diferentes frentes e projetos, combinando linguagens, ativismo e empreendedorismo.

Além de coordenar, com uma equipe reduzida e voluntária, o funcionamento da Afroflix, Yasmin carrega em sua trajetória a curadoria da Festa Literária das Periferias (Flupp), o curta Batalhas (2016), sobre a chegada do funk no Teatro Municipal do Rio, e, com Kbela, o Prêmio de Melhor Curta-Metragem da Diáspora da Academia Africana de Cinema (Amaa), em 2017.

“Durante a pesquisa para fazer Kbela, fui em busca de me conectar com o que os realizadores negros brasileiros estavam pautando em seu cinema, no tema, na linguagem, nas referências fílmicas. De que maneira essas pessoas estavam produzindo cinema. E aí eu vi que havia uma produção absurda. A plataforma nasce como uma ideia de escola mesmo, de ser um espaço de conhecimento, de estudo, não ligada exatamente à pedagogia clássica mesmo”, explica. Para ela, a formação tradicional de cinema também não apresentava outros repertórios, como produções feitas em países africanos.

“Queria criar conexão. Ver quem está fazendo cinema independente em Camarões ou na França. E também ter uma escola física mesmo, que traga um ensino de cinema”, diz.

Ainda que defina como “fundamental” a busca por uma forma de financiamento da Afroflix, a falta de recursos, no momento, não parece impor barreiras às vontades de Yasmin. “A gente fomentou discussões, participou de festivais e isso, de certa forma, trouxe também para esses festivais a necessidade de abrir o olhar curatorial. Nosso desejo é que a gente tenha até financiamento para ter conteúdos originais, uma fonte de produção, além da difusão.”

A diretora, que conheceu o cinema por meio dos camelôs que vendiam filmes em Nova Iguaçu, cidade onde cresceu no Rio de Janeiro, procura democratizar o acesso às produções audiovisuais, preenchendo, com um passo de cada vez, as imensas e históricas lacunas do cinema brasileiro. “Os filmes me chegavam através disso [da pirataria]. Não havia uma cultura de torrent nem internet – só discada. O DVD pirata me permitiu ter acesso aos clássicos. Quando a Afroflix ficou um período fora do ar, muita gente perguntou. As pessoas sentem falta”, reconhece.
 

*Texto produzido durante a terceira edição do evento Encontros de Cinema, que reuniu no Rio de Janeiro, nos dias 15 e 16 de abril, diretores, pesquisadores, roteiristas, produtores, jornalistas e gestores desse setor

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