por Ramon Vitral

Foto da edição de 2018 do FIQ (imagem: divulgação/Glenio Campregher)

O calendário dos quadrinhos brasileiros em 2020 será marcado por dois eventos gratuitos: o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos, em Curitiba. A 11ª edição do evento na capital mineira será realizada entre os dias 27 e 31 de maio e a sexta edição do encontro paranaense será entre 6 e 9 de agosto. Trata-se dos dois principais festivais de HQs do país, refúgios de autores e títulos nacionais em um mercado com tendências crescentes de importação.

São polos de discussão e reflexão sobre quadrinhos em tempos de crise, nos quais eventos do tipo acabam enviesados por interesses quase exclusivamente comerciais.

É óbvio: quadrinista vive; portanto, paga conta. Estuda, pesquisa, gasta em material e, muitas vezes, imprime e distribui seu trabalho tirando do próprio bolso. Daí o valor de convenções voltadas para a venda e a importância da ocupação desses espaços por parte de artistas independentes, além da possibilidade de contato com leitores potenciais não habituados a histórias em quadrinhos. 

Minhas ressalvas principais às convenções de cultura pop dizem respeito ao estímulo de uma produção desenfreada nem sempre saudável financeiramente para o público e muito menos criativamente para os autores.

Tempo, reflexão e diálogo são essenciais. Os recortes curatoriais e os intervalos de dois anos propostos pelo FIQ e pela Bienal podem ser luxos nem sempre usufruídos por todos, mas me parecem mais adequados e sustentáveis do que o ritmo proposto por eventos com foco comercial.

“As feiras permitem um contato direto entre o artista e o público, proporcionando um diálogo e uma troca que vão além da simples observação do objeto”, disse-me o coordenador do FIQ, Afonso Andrade. É exatamente esse contato citado pelo responsável pelo evento em Belo Horizonte que considero o ponto alto do festival.

Na mais recente edição do FIQ, em 2018, somando convidados e expositores, foram cerca de 500 quadrinistas presentes, com cerca de 300 obras na época recém-publicadas ou lançadas no festival.

Sim, as filas são inevitáveis, alguns artistas são mais concorridos do que outros e algum gasto mínimo é esperado. Mas não vejo ali o frisson consumista e colecionista típico de convenções de cultura pop nas quais HQs acabam em segundo plano.

Registro da edição de 2018 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba (imagem: divulgação/Flavio Rocha)

Além dessa proximidade entre autores, editores e público, o FIQ e a Bienal se assemelham em relação aos seus recortes editoriais. Eles privilegiam produções autorais e independentes, às vezes experimentais, mas costumeiramente propositivas em relação ao uso da linguagem dos quadrinhos. Filtro esse que ecoa nas mesas e apresentações presentes em suas programações.

“Nosso compromisso sempre foi com a promoção dos quadrinhos, mas mais ainda com o desenvolvimento cultural de uma forma mais abrangente. Somos produtores culturais, queremos e devemos agregar”, disse-me Luciana Falcon, coordenadora da Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

Em 2020, a Bienal terá a música como tema e um dos curadores será o lendário Fábio Zimbres, autor de um dos maiores clássicos das HQs nacionais, o álbum Música para Antropomorfos.

“O Brasil é mundialmente conhecido pela música. Ela está em nós e diz muito sobre como convivemos, sobre nossa diversidade. É um excelente suporte da nossa voz, sem esquecer dos corpos, que nos interessam também, nosso movimento, nosso traço. Queremos mexer dos pés à cabeça e fazer pensar”, diz Falcon.

Outro ponto em comum entre os dois eventos é a presença crescente e consciente de um viés político. Os dois coordenadores acreditam em uma tendência de fortalecimento de debates relacionados à realidade socioeconômica brasileira.

“Assistimos a diversas tentativas de censura à produção artística e ao livre pensamento, baseadas em preconceitos, ideias autoritárias e anticientíficas”, afirma Andrade. “O FIQ, como um evento calcado nas artes, na educação, na diversidade e na liberdade de expressão, acaba por se tornar um ato de resistência nessa conjuntura.”

Questionada sobre o papel de um evento como a Bienal dentro do atual contexto político brasileiro, Falcon me respondeu: “Basicamente, mas não superficialmente, fazer pensar, refletir. Esse, sem dúvida, é o principal papel. É dar destaque, num recorte, ao que podemos elaborar em pensamentos que ampliem, que nos peguem de surpresa, que ponham dúvida, que questionem, que vão contra certezas absolutas ou imposições.”

Espero ir a pelo menos um desses eventos, mas farei o possível para estar presente nos dois. Recomendo o mesmo para você e deixo o link para os sites do FIQ e da Bienal. Logo mais devem aparecer por lá as primeiras atrações e a programação de cada evento.

Imagens de Máquina de Lavar, HQ de Batista publicada pelo selo Vibe Tronxa Comix (imagem: divulgação)

Três perguntas para… Batista, músico e quadrinista, autor da HQ Máquina de Lavar

O protagonista da seção que encerra a terceira edição da Sarjeta é o músico e quadrinista Batista, um dos editores da revista belorizontina A Zica e autor das coletâneas de cartuns Cutucando a Onça com Vara Curta e Do Alto da Minha Sabedoria e da HQ Máquina de Lavar.

O que você vê de mais especial acontecendo na cena brasileira de quadrinhos hoje?

O surgimento de novos editores. Eu acompanhei uma geração de editores surgir a partir de 2005, com Tarja Preta, Prego, Quase, Samba, Beleléu... Depois vi surgir uma geração de autores e autoras e agora vejo novamente surgirem editores: Lote 42, Ugra, Pé-de-Cabra, Escória Comix, Mino... E esse novo giro da roda. Gosto muito que aconteça, é prova de que as dificuldades não impedem a produção.

Como leitor e autor, o que mais lhe interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Victor Bello e Diego Gerlach. Adoro ler os gibis que se passam num mundo louco com regras e vocabulários próprios. Eu inclusive comecei a falar como os personagens do Victor. A capacidade de envolver as pessoas em um universo absurdo em que tudo pode ser dito sem censura é o que tenho achado mais interessante.

Qual é a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Turma da Mônica e um quadrinho cristão chamado Nosso Amiguinho, que nunca gostei na verdade, pois sempre achei pouco carismático. Mônica eu li bastante, mas não diria que me influencia. Eu me lembrei de uma vez em que encontrei uma publicidade na rua, em formato de quadrinhos, de uma loja de roupas daqui de Belo Horizonte, e fiquei frustrado pois ninguém leu para mim porque estava em inglês. Foi meu primeiro contato com quadrinhos sem a estética infantil.

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