Do samba à música romântica, Alcione se firmou como uma das mais importantes vozes da música brasileira. Intérprete extremamente versátil, Marrom – apelido dado por integrantes da Orquestra Jazz Guarani, regida por seu pai e onde cantou aos 17 anos, substituindo o cantor oficial, acometido por uma afonia – é também instrumentista desde criança, tocando clarinete, saxofone e trompete.

Fotografia em preto e branco da cantora Alcione. Na fotografia Alcione está em pé, tocando trompete. Ao fundo, mesas e cadeiras com pessoas sentadas.
Alcione, em 1970 (imagem: Correio da Manhã / Acervo Arquivo Nacional)

Nascida Alcione Dias Nazareth, em 21 de novembro de 1947, em São Luís, no Maranhão, Alcione foi cinco vezes vencedora do Prêmio da Música Brasileira – premiação que homenageará a cantora em sua 30ª edição, em 2023 –, além de vencedora do Grammy Latino em 2003 e do Academie Arts Sciences Lettres em 2006, entre outros reconhecimentos.

Comemorando 75 anos em 2022, neste ano também se celebram os 50 anos de seu primeiro compacto simples, lançado pela Philips em 1972, contendo as músicas “Figa de Guiné” e “O sonho acabou”. Apesar de passar relativamente despercebido pelo mercado musical, o disco abriu as portas para que, em 1975, ela gravasse seu álbum de estreia, A voz do samba, também pela Philips, consagrando a cantora no samba e rendendo-lhe o primeiro disco de ouro da carreira.

Sua voz inigualável rendeu uma homenagem do poeta Waly Salomão, em 1978, no poema “A voz de uma pessoa vitoriosa”, expressa em trechos como: “Brilha no tempo a voz vitoriosa / sol de alto monte, estrela luminosa / Sobre a Cidade Maravilhosa” e “Quem ouve nunca mais dela se esquece / Barcos sobre os mares, voz que transparece / Uma vitoriosa forma de se viver”. O poema foi musicado por Caetano Veloso e fez sucesso na voz de Maria Bethânia.

Legado

Celebrando suas cinco décadas de carreira, em 2022 chegou aos palcos o espetáculo Marrom, o musical, que conta a trajetória de vida da artista. Idealizado pelo ator e produtor Jô Santana e com direção de Miguel Falabella, o musical integra a série Trilogia do samba, da qual fazem parte os espetáculos Cartola: o mundo é um moinho e Dona Ivone Lara: um sorriso negro. Com temporada encerrada em São Paulo no dia 7 de novembro, o musical em homenagem a Alcione tem como próximo destino a cidade do Rio de Janeiro, ficando em cartaz entre 26 de novembro de 2022 e 5 de fevereiro de 2023.

Fotografia colorida da cantora Alcione. Na imagem, Alcione está sentada, sorrindo e vestindo um vestido preto colar, brincos e batom vermelho. Ao fundo é possível ver algumas poltronas da plateia do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Alcione, em 2022 (imagem: Vinicius Mochizuki)

Em 5 de julho deste ano, Alcione subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde gravou um show celebrando seus 50 anos de carreira, na cidade que a acolheu depois de sair do Maranhão. Foi no Rio de Janeiro que a artista trabalhou cantando em bares e boates, até que Jair Rodrigues a apresentou a Roberto Menescal, diretor artístico da Philips, onde a cantora iniciou sua carreira no mercado fonográfico.

Entre as artistas da nova geração da música brasileira, Tássia Reis, que já havia feito uma homenagem a Alcione em 2021, no programa Versões, do canal Multishow, montou um show inteiramente dedicado à cantora em 2022, que já passou pelo Sesc Santana e pelo Teatro Sala Olido. As gravações das apresentações de Tássia, no programa e no Sesc Santana, estão disponíveis no YouTube.

Outra homenagem que celebrou a artista neste ano foi o EP Meu santo é forte, da cantora paulista MC Tha. A obra, disponível em todas as plataformas digitais, é composta de cinco canções com forte influência da umbanda e que ficaram famosas na voz de Alcione: “Agolonã”, “São Jorge”, “Figa de Guiné”, “Afrekete” e “Corpo fechado”. O EP, produzido por Mahal Pita e com a participação da Comunidade Jongo Dito Ribeiro, traz, além da sonoridade de influência africana, a influência do funk, gênero muito presente nos trabalhos de MC Tha. A artista lançou também um material audiovisual associado ao EP, chamado Clima quente show, um programa de televisão fictício que presta homenagem ao programa musical Alerta geral, apresentado por Alcione entre os anos 1970 e 1980, na Rede Globo.

Alerta geral

O programa Alerta geral – o mesmo nome do álbum de Alcione lançado em 1978 – era gravado no Teatro Fênix, no Rio de Janeiro, e o público era acomodado em volta do palco, como em uma arena, onde os músicos se apresentavam e conversavam com Alcione sobre o mercado musical, suas trajetórias, desafios e a história da música brasileira. Entre os convidados estavam Elza Soares, Clara Nunes, Martinho da Vila, Elizeth Cardoso, Emilio Santiago e Dorival Caymmi.

Foi inclusive com o álbum Alerta geral que Alcione iniciou seu caminho pelas músicas românticas, que passaram a compor a maior parte de seu repertório, com letras sobre ciúmes, traições e paixões, como “Estranha loucura”, “Garoto maroto” e “Meu vício é você”.

Fotografia colorida da cantora Alcione. Na imagem, Alcione está em pé, sorrindo e vestindo um vestido rosa e tem as unhas pintadas de dourado. Ao fundo é possível ver as escadas internas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Alcione, em 2022 (imagem: Vinicius Mochizuki)

Com mais de 30 álbuns lançados, Marrom é a voz e o sorriso inconfundível da noite carioca, do samba, do pagode e da música romântica, mas sua trajetória musical também se expressa no xote, no baião e no bolero. Confira abaixo uma playlist feita pela equipe de redação do Itaú Cultural em homenagem à artista.

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