por Fernanda Castello Branco

“Para Torquato Neto, o começo e o fim eram a mesma coisa”, disse George Mendes, primo e detentor do acervo do artista. Morto em 1972, o poeta piauiense, um dos nomes da Tropicália, segue vivo. E não tem como falar da sua morte sem falar da sua vida e obra, e de toda a sua importância para a música e a cultura brasileira.

Ouça músicas com letra de Torquato Neto:

Um dia depois do seu aniversário de 28 anos, no dia 10 de novembro de 1972, Torquato Neto cometeu suicídio. Saiu de cena em corpo físico, mas, na verdade, nunca saiu. Para o primo George, depois de toda a dor do luto da família, “Torquato colocou fim na vida com absoluto controle e consciência. É doloroso, mas foi o que ele quis”.

Torquato Neto morreu no dia 10 de novembro de 1972 (imagem: acervo artístico Torquato Neto)

“Esse menino crescido
Que tem o peito ferido
Anda vivo, não morreu”

(trecho de “Todo dia é dia D”, de Carlos Pinto e Torquato Neto)

O trecho de “Todo dia é dia D” previu mesmo o que aconteceria com o “menino crescido”. Cinquenta anos depois, em Teresina (PI), sua cidade natal, “uma contradição para ele, mas uma contradição muito querida”, a Universidade Federal do Piauí (UFPI) promove um evento, idealizado por George Mendes e Viriato Campelo, vice-reitor da instituição, para marcar a efeméride de 10 de novembro. “O menino saiu daqui, mas nunca abandonou a cidade. Sabia que ela era provinciana, mas nunca deixou de botar o pé em Teresina”, fala Mendes.

Na ocasião, será lançado o livro Torquato Neto – arte inacabada, organizado por Mendes, Campelo e Paulo José Cunha. A obra conta com texto de Augusto de Campos definindo o artista piauiense como um dos nomes da poesia de vanguarda no Brasil e no mundo, além de contribuições de Paulo Roberto Pires, Edwar Castelo Branco, Claudio Leal e dos três organizadores, entre outros nomes. Confira a programação detalhada ao final deste texto.

Acervo

Torquato Neto e seu legado estão sempre presentes em Teresina. Em 2007, Ana Maria Duarte, viúva do poeta, falecida em 2016, aos 72 anos, confiou definitivamente a George Mendes o acervo de Torquato. Além do que foi enviado do Rio de Janeiro para a capital do Piauí, Mendes incluiu no acervo tudo o que chegava a ele desde a morte do primo.

Torquato Neto morou no Rio de Janeiro até a sua morte (imagem: acervo artístico Torquato Neto)

“Sempre olhei para ele como um menino olhando um ídolo. Ele era o primo famoso que vinha para Teresina e tinha a maior paciência com todos nós. Eu estava com 14 anos quando ele morreu e, como sempre me interessei muito pela sua obra, comecei a guardar as coisas dele que iam chegando às minhas mãos”, conta Mendes, que mantém materiais sobre cinema, música, poesia e jornalismo cultural. Entre as peças estão rabiscos, originais, fotos, discos e livros.

“Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí”

(trecho de “Mamãe coragem”, de Caetano Veloso e Torquato Neto)

Apesar de afirmar que sempre temeu o “Torquato museu”, por não achar “apropriado cultuar o mito”, Mendes conta que no acervo também é possível ver de perto uma mecha do cabelo de Torquato Neto, guardada por anos por sua mãe no “Álbum do bebê”. Outra peça disponível é uma capa usada por ele em algumas viagens e também no filme Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso. “Mas o que vale mesmo é a biblioteca, os discos dele, os postais, as correspondências e tudo o que ele escreveu. Isso revela o Torquato artista”, diz.

Foto antiga colorida mostra um homem jovem sentado em um jardim. Ele está sério, sentado, perto de uma escada de cimento com apenas cinco degraus. Ele usa camisa xadrez e calça cor de vinho. Seu cabelo está levemente crescido, penteado para o lado.
Torquato Neto nasceu em Teresina (PI), no dia 9 de novembro de 1944 (imagem: acervo artístico Torquato Neto)

Para visitar o Acervo Artístico Torquato Neto, em horário comercial, é preciso agendar pelos telefones (86) 3233 5011 e (86) 99432 2347. São permitidas visitas individuais ou de grupos formados por até quatro pessoas. “Para quem não pode visitar pessoalmente, catalogamos e facilitamos o acesso a todos, digitalizando e incluindo tudo no site”, avisa Mendes.

Na academia

Feliciano José Bezerra Filho, graduado em letras na UFPI, mestre e doutor em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e professor adjunto da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), também é cantor e compositor, e já publicou o livro A escritura de Torquato Neto (editora Publisher Brasil, 2004), dissertação do mestrado que ele defendeu em 1988.

“Para nós, piauienses, de maneira geral, ele é uma espécie de mito, uma referência imediata quando se pensa em algum representante nosso na cultura contemporânea brasileira. Desde muito cedo, saindo da adolescência, li Torquato e cantei suas canções. Mais tarde, meu interesse passou para o plano teórico-analítico, de investimento mais específico, quando resolvi apresentar um projeto de pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/SP”, conta Feliciano.

“Não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento
à minha idade”

(trecho de “Andar, andei”, de Renato Piau e Torquato Neto)

Torquato Neto é um dos ícones do movimento tropicalista. Morreu precocemente, aos 28 anos de idade, no Rio de Janeiro. A música Cajuína, de Caetano Veloso, foi dedicada a ele (imagem: Acervo fotográfico Torquato Neto)

Na dissertação, Feliciano pesquisou o sujeito criador Torquato Neto “como um operador multifacetado de linguagens”. “Mostrei que ele soube aproveitar os espaços de atuação, criando objetos e ações estéticas em várias frentes: a produção de poesia propriamente dita (poesia para ser lida); o letrismo tropicalista e a contundente experiência com a canção, que o projetou como poeta da música popular brasileira; a jornada diária no jornalismo cultural com a vibrante coluna ‘Geleia geral’; a militância orgânica no cinema experimental e outras trincheiras das produções vanguardistas e marginais do final dos anos 1960 e início dos 1970”, explica o professor. “Torquato foi um artista multimeios. Cineasta, poeta, compositor, jornalista, Torquato Neto era indomável e não se contentava com o já posto. Um espírito irrequieto que tinha muita pressa e, como um samurai, buscou no suicídio sua arte final.”

Torquato não vai embora nunca e, portanto, também não abandonou Feliciano Bezerra. Hoje ele orienta novas pesquisas sobre a obra do artista. “Entre as pesquisas há explorações mais específicas em relação às várias frentes produtivas do poeta. As que mais se destacam, porém, são as que investigam a obra poética e cancionista do Anjo Torto (uma de suas alcunhas, por causa do poema ‘Let’s play that’, musicado pelo compositor Jards Macalé, em que faz uma intertextualidade com o famoso ‘Poema de sete faces’, de Drummond)”, conta.

Atualmente, Feliciano está orientando uma pesquisa no programa de mestrado da Uespi, intitulada A escritura poético-cancionista de Torquato Neto

O maior legado do artista conterrâneo, segundo Feliciano, está na “contribuição inventiva para a moderna canção brasileira, a aproximação criativa entre poesia e canção. Algo que se inicia no Brasil com Vinicius de Moraes e a Bossa Nova, e avança com a participação fundamental de Torquato Neto durante a Tropicália; e, mesmo após o fim do movimento, ele continuou através de parcerias com Edu Lobo, Jards Macalé, Carlos Pinto, Luiz Melodia”, analisa Feliciano. “Seus vibrantes poemas musicados celebram um tipo de criação que se firma, de forma irrevogável, na cultura musical brasileira, com forte padrão de invenção e qualidade.”

Torquato Neto e Gilberto Gil assinam juntos várias canções (imagem: acervo artístico Torquato Neto)

Outra voz

A contribuição de Torquato para a música brasileira, citada por Feliciano, reverbera em artistas contemporâneos. A mineira Patrícia Ahmaral lança, no dia 10 de novembro, data da morte do poeta piauiense, um tributo inédito. A primeira parte de um álbum duplo, Um poeta desfolha a bandeira, chega às plataformas digitais agora, e, em janeiro de 2023, é a vez do volume 2, A coisa mais linda que existe, dedicado às canções com letras de amor.

Mulher branca aparece sorrindo. Ela tem os cabelos castanhos e cacheados, na altura do queixo. Sua blusa é colorida, com pedaços em azul, amarelo, laranja, verde e rosa.
Patrícia Ahmaral lança dia 10 de novembro disco em homenagem a Torquato Neto (imagem: Kika Antunes)

“São dois volumes não só porque tem muita música boa!”, conta Patrícia. “Antes de ver o filme Todas as horas do fim [Marcus Fernando e Eduardo Ades, 2018], conheci uma prima de Torquato chamada Adélia. Ela me contou do lado doce dele, sobre as curiosidades da família, os cuidados da mãe dele, as preocupações com as internações. Já tinha lido sobre isso, mas é diferente você ouvir de uma pessoa próxima. Aí fui ver Todas as horas do fim e, quando acabou, queria pegar Torquato no colo, aquele espírito imenso que não cabia em si. Então me veio a ideia de cantar as canções de amor, que são absolutamente maravilhosas. Mas não se fala muito desse lado, porque ele sempre está mais ligado à contracultura, à figura combativa. Foi uma decisão afetiva.”

Com direção artística de Zeca Baleiro, o disco é o primeiro de uma intérprete totalmente dedicado à obra de Torquato Neto. Conta com a participação especial de nomes como Jards Macalé, que foi amigo e parceiro de Torquato (e gravou “Let’s play that”, sua parceria com o poeta, usando o mesmo instrumento da primeira gravação), Chico César, Maurício Pereira, Banda de Pau e Corda e Moda de Rock. A direção musical do trabalho é assinada por Rogério Delayon, Marion Lemonnier e Walter Costa.

“Achei muito importante trazer o Jards, pela ligação dele com Torquato. Tinha muita esperança também que ele desejasse estar junto, e deu certo”, conta Patrícia. “Sou muito admiradora dele, ele é um dos seres mais musicais do Brasil e do planeta.”

Mulher e homem aparecem sentados em um banco de madeira encostado em uma parede branca. Ela é mais jovem que ela, está sorrindo, usa um colar de bijuteria e tem os cabelos cacheados abaixo dos ombros. O homem é grisalho, está com o braço atrás das costas da mulher, com a mão pousada abaixo do ombro dela, e usa óculos de grau.
“Achei muito importante trazer o Jards, pela ligação dele com Torquato", conta Patrícia Ahmaral (imagem: Andréa Nestrea)

Apaixonada assumida pelo poeta piauiense, Patrícia sonha com esse projeto há mais de 20 anos. Em 1998, na 1a bienal internacional de poesia de Belo Horizonte, ela recebeu a missão dos poetas mineiros Ricardo Aleixo e Marcelo Dolabela (1957-2020) de cantar músicas do repertório de Torquato, no show TorquaTotal. A mesma banda que a acompanhou naquele evento está em duas faixas do disco, com os mesmos arranjos executados na época.

Escolher uma canção favorita é difícil para Patrícia. “Tem coisas com um valor acima de gosto. ‘Geleia geral’, por exemplo, é um absurdo aquela letra! É um manifesto, uma poesia maravilhosa. Ela é uma marca cravada na subjetividade do que é o Brasil e do que pode ser a música brasileira. Um caldo cultural de contradições e potências”, afirma. “Mas eu tenho um afeto especial por ‘Mamãe coragem’.”

“O poeta desfolha a bandeira
E a manhã tropical se inicia
Resplendente, cadente, fagueira
Num calor girassol com alegria
Na geleia geral brasileira
Que o Jornal do Brasil anuncia”

(trecho de “Geleia geral”, de Gilberto Gil e Torquato Neto)

No disco, “Mamãe coragem” conta com a participação de Maurício Pereira nos vocais e Tonho Penhasco na guitarra. “Sou muito admiradora do Maurício. Já tinha gravado essa música no meu disco de 2011, mas em uma versão com banda, meio rock and roll, em um arranjo bonito do Fernando Nunes. Como ela não poderia ficar de fora, pensamos em um arranjo mais minimalista. Aí ouvi o Maurício cantando e tive certeza de que ele, com aquele canto tão particular, iria trazer um sentido especial para essa música”, diz Patrícia.

Ouvinte de rádio a vida toda, foi lá que a artista descobriu Torquato Neto. Ouvia falar dele, mas nunca tinha mergulhado na sua obra. E chegou ao momento de ser a primeira artista a dedicar um disco inteiro a ele. “É uma responsabilidade. Ele é uma figura determinante na história da música brasileira. Ele deixou uma marca incrível, que reverbera até hoje. Sempre em busca da vanguarda. Percorri um longo caminho de reverência para chegar até aqui”, afirma.

Lembremos: o fim e o começo são a mesma coisa. Para além da obra como legado, na fala de todos que conheceram Torquato Neto, podemos dizer que ele deixou muito amor. “Ele era radical e feroz, mas era também uma pessoa muito doce”, lembra o primo George. Ele tinha algo que comovia todos nós. Estava sempre sereno. Ninguém lembra dele discutindo.” Para Patrícia, “tem a coisa da genialidade, mas o que ele nos deixou foi o afeto, e isso perpassa o nosso sentimento em relação a ele”.

Programação Torquato 50 anos em Teresina (PI)

Homem jovem de cabelos pretos, compridos e cacheados está sorrindo atrás de uma árvore.
Programação em Teresina vai relembrar o legado de Torquato Neto, poeta piauiense (imagem: acervo artístico Torquato Neto)

 

9 de novembro, quarta-feira, às 17h
Livraria UFPI – Espaço Rosa dos Ventos

  • Lançamento do livro Torquato Neto – arte inacabada
  • Exposição audiovisual Torquatália 40 anos

10 de novembro, quinta-feira, vários horários
Auditório Espaço Rosa dos Ventos (UFPI)

  • 10h: Diálogos culturais – música e poesia
    com Feliciano Bezerra, Cineas Santos, Geraldo Brito, Viriato Campelo, Thiago Eh, PJ Cunha e George Mendes
  • 15h: Diálogos culturais – cinema e jornalismo
    com Edwar Castelo Branco, Jaislan Honório, Fábio Leonardo, F Magalhães, Fenelon Rocha, Edmar Oliveira e Isis Rost
  • 17h30: projeção do filme Pira poesia
  • 19h: projeção do filme Todas as horas do fim

16 de novembro, quarta-feira, vários horários
Sesc Cajuína

  • 18h: abertura da exposição audiovisual Torquatália 40 anos (a exposição fica em cartaz até 16 de dezembro)
  • 18h: lançamento do livro Torquato Neto – arte inacabada
  • 19h: Geraldo Brito e 086 Trio convidam o projeto musical Torquato Neto – inéditas entre nós
  • 20h: projeção do filme Todas as horas do fim

18 de novembro, sexta-feira, vários horários
Sesc Cajuína

  • 18h: lançamento dos livros Navilouca ReVista e Torquato tristeza Teresina, de Isis Rost
  • 19h: Geraldo Brito e 086 Trio convidam o projeto musical Torquato Neto – inéditas entre nós
  • 20h: projeção do filme Pira poesia, de Dai Belquer

19 de novembro, sábado, às 9h
Academia Piauiense de Letras

  • Lançamento do Livro Torquato Neto – arte inacabada

25 de novembro, sexta-feira, vários horários
Sesc Cajuína

  • 18h: lançamento dos livros O fato e a coisa e Círculo de poemas, de Torquato Neto
  • 18h: lançamento do livro Arte como experiência: cinema, intertextualidade e produção de sentidos, de Jaislan Honório Monteiro, sobre o cinema experimental de Torquato Neto
  • 19h: Geraldo Brito e 086 Trio convidam o projeto musical Torquato Neto – inéditas entre nós
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